Opinião: “Coração Acelerado” herda o DNA de “Cheias de Charme” e “Rock Story”
O “manual” da novela musical da Globo está nas mãos de quem ajudou a escrevê-lo: Izabel de Oliveira, criadora de "Cheias de Charme", e Maria Helena Nascimento, uma das mentes por trás de "Rock Story"
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Desde a estreia, na última segunda-feira (12), “Coração Acelerado” deixa claro que não está interessada em esconder suas referências. Ao contrário: a novela assume, sem pudor, a herança de duas produções que já deram muito certo na Globo — “Cheias de Charme” e “Rock Story” — e constrói sua identidade a partir dessa mistura.
Não é coincidência. As autoras de “Coração Acelerado” são justamente Izabel de Oliveira, criadora de “Cheias de Charme”, e Maria Helena Nascimento, uma das mentes por trás de “Rock Story”. Ou seja: o “manual” da novela musical popular da Globo está nas mãos de quem ajudou a escrevê-lo.
Assim como em “Cheias de Charme”, “Coração Acelerado” parte de personagens que vêm de baixo, invisibilizados, tentando furar um sistema que insiste em mantê-los à margem. Se as Empreguetes transformaram o sonho pop em ascensão social, agora é o sertanejo — mais especificamente o feminejo — que ocupa esse lugar simbólico. A música, mais uma vez, não é trilha: é motor de narrativa, conflito e virada de vida.
Já a herança de “Rock Story” aparece com força no outro polo da trama: o artista consagrado em crise com a própria carreira. João Raul, vivido por Filipe Bragança, dialoga diretamente com aquele arquétipo do astro que virou produto, cercado por empresários, contratos sufocantes e uma engrenagem que lucra mais com sua imagem do que com sua verdade artística. Aqui, o conflito não é “voltar ao topo”, mas recuperar identidade antes de desaparecer como indivíduo.
Essa engrenagem ganha rosto nos empresários vilões — outra ponte clara com as novelas anteriores. Se “Cheias de Charme” ironizava o estrelato e “Rock Story” escancarava a exploração do talento, “Coração Acelerado” atualiza esse antagonismo para os anos 2020: gestão de imagem, superexposição, narrativa pública e monetização como forma de controle. O vilão agora entende de mercado, engajamento e marca pessoal.
A própria estrutura musical reforça essa continuidade. Assim como nas produções anteriores, a Globo investe pesado em músicas originais, lançadas antes mesmo da estreia, pensadas para circular fora da novela e alimentar o buzz nas plataformas digitais. A trama vira quase uma gravadora em funcionamento — estratégia que já se mostrou eficaz no passado, agora adaptada à lógica de viralização.
Mas “Coração Acelerado” não é mera repetição. Ao deslocar o eixo para Goiás, para o sertanejo e para o feminejo, a novela atualiza o discurso. Onde antes havia pop urbano e rock, agora há duetos, feats, fandoms e uma indústria musical moldada pelas redes sociais. A ambição continua a mesma: começar com pouco e mirar alto — só que com novas regras do jogo.
No fim, “Coração Acelerado” funciona como síntese. Ela junta a ascensão social de “Cheias de Charme”, a crise de identidade de “Rock Story” e embala tudo em uma estética contemporânea, assumidamente comercial e popular. Não esconde as referências porque sabe que elas jogam a seu favor. A novela não tenta reinventar o subgênero — tenta repetir o que a Globo sabe fazer melhor quando aposta na música como protagonista.
E talvez essa seja justamente sua maior aposta: provar que, mudando o ritmo, o cenário e o mercado, a fórmula ainda pulsa.
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