Opinião: “Dança dos Famosos” escancara vício da Globo em repetir os mesmos nomes
Com quatro ex-BBBs entre os 16 participantes, nova temporada reforça sensação de que a emissora recicla nomes em seus programas de entretenimento
A nova edição da “Dança dos Famosos” tem bons nomes, algumas escolhas surpreendentes e até gente que há tempos merecia voltar a ocupar um espaço maior na televisão. Mas a escalação também escancara um velho problema da Globo: a dificuldade de renovar de verdade os rostos que circulam por seus programas de entretenimento.
Dos 16 participantes anunciados para a temporada de 2026, quatro passaram recentemente pelo “Big Brother Brasil”: Bianca Andrade, a Boca Rosa, esteve no “BBB 20”; Pedro Scooby, no “BBB 22”; Bruna Griphao, no “BBB 23”; e Gracyanne Barbosa, no “BBB 25”. É muita coisa. Um quarto de todo o elenco da “Dança dos Famosos” saiu de um único reality show.
Nenhum item relacionado encontrado.O problema não está, individualmente, em nenhum dos quatro. Todos têm justificativas para estar ali. Bianca construiu uma carreira milionária como empresária e influenciadora; Scooby é um dos maiores nomes do surfe brasileiro; Bruna é atriz e continua trabalhando na dramaturgia; e Gracyanne tem uma história diretamente ligada à dança.
A questão é outra: com tanta gente interessante disponível no mercado, é necessário recorrer tantas vezes às mesmas figuras que já receberam enorme exposição dentro da própria Globo?
A sensação de repetição aumenta porque o “Domingão” também tem se transformado numa espécie de segunda parada para nomes que passaram por outros realities ou pelos próprios quadros da atração.
Gracyanne é o caso mais justificável. Ela já disputava a “Dança dos Famosos” em 2025 quando sofreu uma grave lesão durante uma apresentação de lambada, rompeu um tendão e precisou passar por cirurgia. Luciano Huck a convidou publicamente para retornar no ano seguinte. Portanto, sua presença em 2026 é praticamente a conclusão de uma história interrompida.
MC Livinho também é um retorno. Ele estava entre os participantes anunciados em 2025, mas sofreu um acidente de moto antes de começar efetivamente sua trajetória na competição e acabou substituído por Lucas Leto.
São casos compreensíveis. Mas, somados à presença de quatro ex-BBBs e a outros convidados que já passaram recentemente pelo “Domingão”, ajudam a produzir uma impressão incômoda: a de que existe um grupo relativamente pequeno de celebridades sendo constantemente redistribuído entre os produtos de entretenimento da Globo.
E isso é curioso porque a própria “Dança dos Famosos” de 2026 prova que existe outro caminho.
Ticiane Pinheiro é uma ótima novidade justamente porque passou duas décadas longe da Globo. Otaviano Costa também tem o sabor de reencontro com o público da emissora. Kenya Sade representa uma escolha muito menos óbvia. Breno Ferreira vive um momento de crescimento na dramaturgia. Rita Guedes é uma atriz conhecida do grande público, mas que não está superexposta. Giovana Cordeiro e Mell Muzzillo também ajudam a trazer a dramaturgia para o palco sem a sensação de que acabaram de sair de outro reality.
São justamente esses nomes que mostram como a escalação poderia ser mais inventiva.
A Globo tem um elenco gigantesco de atores, jornalistas, apresentadores, esportistas e artistas que raramente são chamados para esse tipo de programa. Fora da emissora, o universo é ainda maior. Há ex-estrelas de outras TVs, artistas que desapareceram do vídeo, nomes populares na música, no esporte e na internet e gente que o público adoraria reencontrar.
A “Dança dos Famosos” é uma vitrine poderosa justamente porque consegue apresentar uma celebridade sob outro ângulo. Para isso funcionar plenamente, porém, é importante que exista alguma novidade em colocar aquela pessoa ali.
Quando alguém sai de um reality, aparece em outro programa, participa de um quadro e pouco depois entra em uma nova competição, a televisão começa a desperdiçar uma de suas armas mais importantes: a expectativa.
Não se trata de proibir ex-BBBs de participar de outros programas. O BBB revelou ou reposicionou muita gente que construiu carreira consistente depois do confinamento. O problema é transformar o reality numa espécie de banco permanente de elenco para todo o entretenimento da emissora.
A “Dança dos Famosos” deveria ser justamente o contrário: um lugar capaz de misturar quem está em evidência com quem o público sente saudade, revelar personalidades inesperadas e colocar sob os holofotes gente que nunca imaginamos ver dançando.
A edição de 2026 tem exemplos dos dois caminhos. E talvez seja justamente por isso que a comparação fique tão evidente. Quando há tantas celebridades à disposição, repetir é sempre a escolha mais fácil. Mas nem sempre é a mais interessante.
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