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Opinião: Por que o excesso de segredo pode estar afastando o público das novelas?

Blindagem total da Globo tira da mídia e do telespectador a chance de comentar, especular e manter as histórias vivas

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*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião do portal LeoDias.

          Muito se fala sobre a crise de audiência das novelas da Globo. E na noite desta segunda-feira (29), no “Jornal dos Famosos”, da LeoDias TV, Chris Flores trouxe uma lembrança que ajuda a entender como as coisas mudaram. A jornalista contou que, anos atrás, era comum ir até a Globo ler os capítulos das novelas que estavam no ar e das que ainda estavam por vir. Essa prática garantia que as revistas da época tivessem material para alimentar o público com resumos, entrevistas e antecipações. Em outras palavras: a novela não começava apenas na TV, mas também nas bancas, nos jornais e no burburinho popular.

          Hoje, a lógica é outra. A Globo mantém segredo absoluto sobre as tramas, grava diversas versões de cenas para evitar vazamentos e entrega muito pouco para a imprensa. É como se a emissora tivesse fechado as cortinas, com medo de que a antecipação de informações tire o impacto das histórias. Só que, na prática, esse silêncio pode estar custando caro.

          Novela é produto de massa. Ela precisa estar na boca do povo, precisa que as pessoas comentem, especulem, discutam no trabalho, no transporte, no grupo de família. E a imprensa sempre foi uma ponte poderosa entre a trama e o público. Ao restringir esse acesso, a Globo corta um dos canais que ajudavam a novela a virar assunto do dia. Não é à toa que, atualmente, as “novelas da vida real” (como por exemplo tudo que gira em torno de Virginia, Zé Felipe e Ana Castela) geram mais repercussão que as ficcionais.

          O resultado é que o burburinho se deslocou. Hoje, quem dita o tom da conversa muitas vezes são perfis de redes sociais, páginas de spoiler e até canais no YouTube que tentam ocupar o espaço deixado pela emissora. Só que nem sempre com a mesma força, porque falta o respaldo do material oficial.

          A Globo aposta no segredo como se fosse preservar o impacto das cenas. Mas talvez esteja justamente minando a expectativa que se constrói no “antes”. O público quer ser provocado, quer imaginar o que vai acontecer. E é nessa lacuna que a imprensa sempre foi essencial.

          No fim das contas, quanto mais uma novela é comentada, mais ela existe fora da tela — e mais gente corre para vê-la dentro da tela. Ao blindar demais suas histórias, a Globo parece caminhar na contramão da própria natureza da novela: ser uma conversa nacional, um ritual coletivo.

          Talvez a crise de audiência não seja apenas sobre enredo ou concorrência com o streaming. Talvez seja também sobre algo mais simples: a novela precisa voltar a ser falada. E, para isso, é preciso devolver à imprensa o papel de parceira — e não de mera espectadora.

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