Opinião: “Por Você” acerta ao mostrar que médicos também precisam ser cuidados
Trama de Vitor (Lucas Leto) aborda com delicadeza a pressão, a exaustão e a automedicação entre profissionais de saúde
Entre tantas histórias que se cruzam no Hospital & Maternidade Luz, uma das tramas mais delicadas de “Por Você” talvez seja justamente aquela que menos precisa de grandes reviravoltas para funcionar. A trajetória de Vitor (Lucas Leto), um jovem médico que começa a recorrer a medicamentos para conseguir suportar uma rotina exaustiva de trabalho, vem sendo conduzida com sensibilidade e, principalmente, sem transformar o personagem em vilão de suas próprias escolhas.
A conversa de Vitor com Bela (Sheron Menezzes), depois de mais uma falha do residente durante um procedimento, foi um dos momentos mais bonitos desse arco. Não apenas pela delicadeza da cena, mas pela forma como Lucas e Sheron conseguiram fugir do óbvio. Não havia ali um médico irresponsável sendo repreendido por uma superior. Havia um profissional no limite sendo enxergado por outra pessoa.
Nenhum item relacionado encontrado.Vitor foi apresentado desde o início como um médico brilhante, dedicado e absolutamente obcecado pelo trabalho. A medicina, para ele, não é apenas uma profissão. É quase uma medida de seu próprio valor. Lucas Leto chegou a definir o primeiro grande conflito do personagem como uma batalha dele consigo mesmo: Vitor se cobra demais e enxerga a profissão como uma maneira de vencer na vida.
A novela foi preparando o terreno até chegar à automedicação. Exausto depois de sucessivos plantões, Vitor cometeu um erro ao prescrever um medicamento e só não colocou um paciente em risco porque Alencar percebeu a falha. Em vez de entender o episódio como um sinal de que precisava parar, encontrou nos estimulantes uma maneira artificial de continuar produzindo.
É uma inversão cruel: o médico, treinado para identificar quando o corpo de outra pessoa precisa de ajuda, torna-se incapaz de reconhecer os sinais do próprio corpo.
“Por Você” toca, assim, numa realidade pouco explorada pela ficção quando retrata a medicina. Normalmente, acompanhamos médicos como aqueles que salvam, diagnosticam, tomam decisões e suportam jornadas quase sobre-humanas. Vitor mostra o outro lado dessa imagem: o profissional cansado, pressionado, inseguro e disposto a ultrapassar os próprios limites para corresponder à expectativa de excelência.
E existe outra camada importante no personagem. Vitor é um jovem médico negro tentando se afirmar em um ambiente de enorme cobrança. Para se preparar para o papel, Lucas Leto ouviu profissionais negros de diferentes especialidades e contou que alguns relataram a solidão de muitas vezes serem a única pessoa preta na faculdade, na residência ou no hospital.
Isso ajuda a compreender por que a cobrança de Vitor não nasce simplesmente de uma ambição desmedida. Existe nele uma necessidade permanente de provar que merece ocupar aquele espaço. E a novela é inteligente ao não precisar transformar essa questão em discurso a cada capítulo. Ela está na construção do personagem.
Lucas Leto também merece destaque. Vitor representa mais um passo importante numa trajetória que começou nas novelas da Globo com “Bom Sucesso”, em 2019, passou pelo Marcelo de “Pantanal”, em 2022, e ganhou nova projeção com o Sardinha do remake de “Vale Tudo”, em 2025.
O ator consegue imprimir a Vitor. Na cena com Bela, Lucas não procura transformar o sofrimento do personagem em espetáculo. Vitor parece, sobretudo, cansado. E Sheron Menezzes responde na mesma medida, oferecendo à sequência uma Bela acolhedora sem ser condescendente. É uma conversa entre dois médicos, mas também entre duas pessoas que conhecem o peso de precisar provar diariamente que são capazes.
Ao abordar a automedicação sem moralismo, “Por Você” consegue levantar uma questão maior: quem cuida de quem passou a vida aprendendo a cuidar dos outros? Vitor ainda terá de enfrentar as consequências de suas escolhas. Ele vai admitir a Ricardo (Paulo Vilhena) que vinha usando medicamentos, e o preceptor exigirá que interrompa a automedicação.
Mas o acerto da novela está em não resumir essa trajetória ao erro cometido. Antes de julgar Vitor, o texto procurou entender como ele chegou até ali. E é justamente essa delicadeza que transforma uma trama aparentemente secundária em uma das histórias mais humanas de “Por Você”.
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