Crítica: Em “Hamnet”, Chloé Zhao entrega seu filme mais triste e poderoso
Com performances devastadoras, o longa é um estudo sensorial sobre como a dor de uma mãe e o silêncio de um pai deram luz a "Hamlet"
Provando que é uma das maiores diretoras de sua geração, Chloé Zhao (“Nomadland” e “Eternos”) conseguiu mais uma vez impressionar o público fã de cinema. Desta vez, “Hamnet” remove o mito por trás da imagem intocável de William Shakespeare (1564–1616) dos livros e mergulha no luto de uma tragédia na família do renomado poeta, dramaturgo e ator inglês.
Adaptado do best-seller de Maggie O’Farrell, o longa chega como um dos títulos mais emocionais do ano, trocando o foco da genialidade literária pelo custo humano por trás dela. A trama se passa em Stratford-upon-Avon, mas o palco principal não é um teatro, e sim a floresta e os cômodos apertados onde vive Agnes (Jessie Buckley). A personagem é uma mulher conectada à natureza e dotada de uma sensibilidade quase mística, e seu marido, um jovem tutor de latim chamado Will (Paul Mescal).
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A narrativa adota uma linearidade cruel, com o público acompanhando a construção dessa família até o momento em que uma tragédia acaba destruindo suas estruturas. A partir daí, o filme se torna um estudo sobre as maneiras de lidar com a situação traumática.
Enquanto Agnes grita sua dor para a terra e para as árvores, demonstrando que dificilmente conseguirá se curar, Will foge para Londres e para dentro de si mesmo, tentando transformar o impronunciável em teatro. A ligação dele com a família acaba se desenrolando de uma maneira que promete dividir o público e gerar até mesmo questionamentos internos.
Chloé Zhao entrega um trabalho impecável, fazendo com que a câmera flutue próxima aos rostos dos atores, se perca na paisagem local e, assim, entregue uma sensação de envolvimento com a atmosfera. A diretora foge do melodrama verbal, expondo a dor física dos personagens, seja com o toque das mãos ou com o peso do tempo.
Agnes também é historicamente conhecida como Anne Hathaway, mas em “Hamnet” ganha um destaque muito maior e acaba sendo mantida no centro dessa história intensa. A mulher deixa de ser apenas a “esposa do escritor” e se torna uma força fundamental da narrativa.
Atuações e química do elenco são extremamente impactantes
Além do trabalho técnico brilhante, o filme é estrelado de forma impressionante por Jessie Buckley (Agnes) e Paul Mescal (Will). A atriz, que já havia entregado atuações primorosas em obras como “A Filha Perdida”, expõe uma força quase surreal, com uma performance que torna impossível não ficar de boca aberta em diversos momentos.
Buckley constrói uma Agnes visceral e crua, uma mãe que tenta de todas as formas segurar a vida dos filhos com as próprias mãos. O trabalho é tão impactante que se mostra digno de múltiplas premiações na temporada que já está em andamento, pois boa parte do longa é sustentada por sua atuação.
Paul Mescal, por sua vez, entrega uma interpretação mais internalizada, baseada em olhares e culpa que revelam muito do que Will sente nos momentos mais intensos do filme. É como se o ator sangrasse através da arte, sem precisar explicitar o contraponto doloroso com a explosão emocional da esposa.
As crianças do elenco são um capítulo à parte e completam a grandiosidade da produção de forma surpreendente. O jovem Jacobi Jupe (Hamnet), ainda no início da carreira, prova ser a escolha perfeita para o papel e emociona profundamente.
Leve os lenços para a sala de cinema
“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” é uma obra de arte que acompanha a marcante história da perda do filho de William Shakespeare, evento que inspirou a famosa peça “Hamlet”. O longa explora a dor e o sofrimento de maneira sensível e apresenta o que seria a primeira encenação da obra como um dos momentos mais impressionantes da produção.
A célebre frase “ser ou não ser” surge aqui como um diálogo de desespero entre um pai vivo e um filho morto, levantando inúmeras reflexões. Não é um filme fácil e, por isso, é altamente recomendável levar lenços para a sala de cinema, especialmente se você se emociona com experiências cinematográficas intensas.
Sem dúvida, este é um dos melhores filmes da temporada e merece ser visto nos cinemas em janeiro de 2026, para que o público se deixe imergir por essa história profundamente impactante.
Nota: 10/10
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