O que incomoda é quem fala: a seleção moral por trás do incômodo com a cultura periférica
Funk e trap são alvos constantes de críticas, mas rejeição revela mais sobre a origem de seus artistas do que sobre suas mensagens
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O incômodo que a cultura periférica provoca vai além do som ou da letra. No centro da rejeição está a figura do artista que ocupa um espaço que historicamente lhe foi negado. Quando a periferia celebra sua existência, a sociedade revida com moralismo seletivo.
Na cultura brasileira, o desconforto com o funk e o trap parece ultrapassar o campo estético. O que incomoda, segundo artistas e estudiosos, não é o que se canta, mas quem canta. A narrativa muda quando a voz vem da periferia manifestando a cultura o qual faz parte de sua vivência.
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O conceito de cultura, segundo o antropólogo Roque Laraia, refere-se a todo o conjunto de comportamentos, valores, práticas, crenças e expressões compartilhadas por um grupo social. Não é sinônimo de erudição ou sofisticação estética, tão pouco um privilégio de classes altas. Se trata da maneira como as pessoas vivem, se organizam, se expressam e constroem sentido para o mundo ao seu redor.
Toda sociedade possui cultura, e não há cultura superior ou inferior: há, apenas, diferentes formas de viver e interpretar a realidade.
Em entrevista exclusiva ao portal LeoDias, o rapper Japão Viela observa: “Quando a periferia canta sua dor, nos chamam de vitimistas. Quando celebramos nossos corpos, dizem que somos vulgares. Mas nas casas de quem nos critica, os filhos dançam no TikTok e vestem nossa estética.”
A frase resume um fenômeno descrito por estudiosos como “resistência disfarçada de repulsa”. O funk ostentação, por exemplo, virou sucesso em festas de classe média, mas seus autores seguem marginalizados.
Câmbio, veterano do rap brasiliense, reforça que o preconceito não é novo: “Fazemos nosso som do nosso jeito, do jeito que a gente é… A periferia é a base de sustentação desse país, mas nos tratam como problema, não como solução.”
Esse paradoxo revela o incômodo central: a ascensão do periférico quebra a lógica histórica da subalternidade. É aceitável consumir sua arte, mas não aceitar sua potência social.
Para pesquisadores da cultura urbana, trata-se de uma disputa por narrativa. Quem pode contar a história do Brasil? Quem tem direito à palavra?
Quando a arte periférica incomoda, talvez não seja pelo que ela diz, mas por lembrar que a voz que fala agora não pede mais permissão.
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