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Morte de Lua Blanco acende alerta; médico explica por que o câncer de intestino é silencioso

Em entrevista ao portal LeoDias, o coloproctologista Alexandre Nishimura esclarece por que a doença pode passar despercebida no início, quais sinais costumam ser ignorados e o que leva pacientes a receberem o diagnóstico em estágio avançado

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          A morte de Lua Blanco, aos 39 anos, em decorrência de um câncer de intestino, chama a atenção para uma característica preocupante da doença: a possibilidade de evolução sem sinais evidentes. Mas por que tantos pacientes só descobrem o problema quando ele já está avançado? Em entrevista ao portal LeoDias, o coloproctologista e cirurgião robótico Alexandre Nishimura explica o que torna o câncer colorretal um desafio para o diagnóstico e faz um alerta sobre a importância de não ignorar determinadas mudanças no organismo.

          Por que os sinais do câncer de intestino são tão silenciosos?

          O câncer colorretal pode começar a se desenvolver na camada interna do intestino sem comprometer imediatamente seu funcionamento. Como o tumor ainda pode ser pequeno, o paciente consegue manter sua rotina normalmente e não percebe mudanças que indiquem a presença de uma doença importante.

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          Foto: Freepik
          Câncer de intestinoFoto: Freepik
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          Câncer de intestino
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          A atriz Lua BlancoReprodução / Instagram
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          A atriz Lua BlancoReprodução

          Outro fator é que eventuais sangramentos podem ocorrer em quantidades muito pequenas, sem serem visíveis nas fezes. Assim, a ausência de sangue aparente, dor abdominal ou alterações significativas na evacuação não significa que não exista uma lesão.

          “O tumor começa pequeno, na camada que reveste o intestino por dentro. Nessa fase, pode não atrapalhar a passagem das fezes nem provocar inflamação suficiente para causar dor. Eventuais sangramentos podem ser tão discretos que ficam invisíveis. Por isso, eu reforço: sentir-se bem não substitui fazer o rastreamento no momento indicado. Não precisamos esperar o corpo reclamar para cuidar dele”, explicou o especialista.

          De acordo com Nishimura, esse comportamento da doença ajuda a explicar por que o rastreamento é importante mesmo para pessoas que não apresentam sintomas. A estratégia permite procurar alterações antes que o paciente perceba algum problema, ampliando as possibilidades de identificação precoce.

          Por que tantas pessoas descobrem o câncer em estágio avançado?

          Se o câncer pode passar despercebido no início, o que faz com que alguns pacientes só descubram a doença quando ela já avançou? Segundo o especialista, não existe uma única explicação. A combinação entre sintomas discretos, interpretação equivocada dos sinais e demora na busca por atendimento pode contribuir para o diagnóstico tardio.

          Sangue nas fezes, mudanças no funcionamento intestinal e desconfortos abdominais, por exemplo, podem ser atribuídos a hemorroidas, constipação ou outros problemas considerados comuns. Quando os sintomas são intermitentes ou não provocam dor, o paciente pode não perceber a necessidade de investigação.

          Além disso, medo, vergonha e dificuldades de acesso a consultas e exames também podem adiar o diagnóstico. Entre os mais jovens, existe outro obstáculo: a crença de que a doença só aparece em pessoas mais velhas.

          “É uma combinação de fatores: ausência de sintomas no início, sinais confundidos com problemas comuns, medo, vergonha e dificuldades de acesso a consultas e exames. Nos jovens, a ideia de que ‘nessa idade não pode ser câncer’ também pode atrasar a investigação. Precisamos acolher o paciente e facilitar seu acesso ao diagnóstico. O alerta também vale para nós, médicos: sintomas persistentes merecem atenção, independentemente da idade”, esclareceu.

          A idade, portanto, não deve ser usada como justificativa para ignorar sinais suspeitos. Embora o risco aumente com o envelhecimento, o câncer colorretal também pode atingir adultos jovens, inclusive pessoas sem histórico familiar da doença.

          Quais sinais costumam ser ignorados?

          Um dos desafios é reconhecer que nem todas as manifestações do câncer de intestino são intensas ou facilmente identificáveis. Algumas alterações podem ser confundidas com mudanças passageiras na alimentação ou no funcionamento intestinal.

          Entre os sinais de alerta estão sangue nas fezes, diarreia ou prisão de ventre persistentes, mudanças no hábito intestinal, sensação de evacuação incompleta e perda de peso sem explicação. A anemia por deficiência de ferro também pode ser uma manifestação da doença, provocando cansaço, palidez e falta de disposição sem que o paciente perceba qualquer sangramento.

          “Sangue nas fezes, mudança persistente do hábito intestinal, diarreia ou prisão de ventre diferentes do habitual, sensação de evacuação incompleta e perda de peso sem explicação. Anemia por deficiência de ferro pode causar cansaço, palidez e falta de disposição, mesmo sem sangramento visível. Mudanças no formato das fezes também merecem atenção quando persistentes, mas, isoladamente, não diagnosticam câncer. Não é preciso sentir dor para existir uma doença importante”, contou o coloproctologista.

          O especialista alerta que esses sintomas não significam necessariamente câncer, mas precisam ser investigados quando são novos, persistentes, recorrentes ou estão piorando. Mesmo quem já recebeu diagnóstico de hemorroidas não deve presumir que essa seja a causa de todo sangramento.

          “Não é seguro diferenciar apenas pela aparência do sangue ou pelo relato dos sintomas. Hemorroidas podem sangrar, mas sua presença não exclui outra doença. Já a síndrome do intestino irritável não costuma explicar sangue nas fezes, anemia por perda de ferro ou emagrecimento involuntário. Uma alteração nova, persistente, recorrente ou que esteja piorando precisa ser investigada. Sangramento e anemia sem causa esclarecida merecem avaliação sem ficar esperando. Sangue nas fezes não significa necessariamente câncer, mas precisa ter sua causa esclarecida”, completou.

          Como descobrir a doença antes que apareçam sintomas?

          Como o câncer pode evoluir silenciosamente, o rastreamento é uma ferramenta importante para identificar alterações em pessoas que se sentem bem. Muitos tumores colorretais se desenvolvem a partir de pólipos, pequenos crescimentos na parede interna do intestino. Embora nem todos se transformem em câncer, alguns podem evoluir ao longo dos anos.

          A colonoscopia permite examinar o interior do intestino e retirar determinados pólipos durante o procedimento, quando indicado. Outra possibilidade é o teste imunoquímico fecal, conhecido como FIT, que procura pequenas quantidades de sangue nas fezes. Um resultado positivo exige investigação complementar, geralmente por colonoscopia.

          “Sim. É justamente por isso que existe o rastreamento: procurar alterações em pessoas que se sentem bem. Muitos cânceres colorretais se desenvolvem a partir de pólipos, pequenos crescimentos na parede interna do intestino. Nem todo pólipo se transforma em câncer, mas alguns podem evoluir ao longo dos anos. A colonoscopia permite identificar e retirar essas lesões. Nesse cenário, podemos agir antes de o câncer aparecer”, explicou.

          A idade recomendada para iniciar o rastreamento depende das diretrizes adotadas, do histórico familiar e das condições individuais. Algumas diretrizes internacionais recomendam começar aos 45 anos para pessoas com risco habitual, enquanto a estratégia anunciada pelo Ministério da Saúde para o SUS prevê o uso do FIT em pessoas assintomáticas de 50 a 75 anos.

          Quem tem familiares próximos diagnosticados com câncer colorretal pode precisar iniciar o acompanhamento mais cedo. Já as pessoas que apresentam sintomas suspeitos não devem esperar atingir a idade recomendada para o rastreamento.

          Diagnóstico precoce pode aumentar as chances de cura

          O estágio em que o câncer é identificado influencia as possibilidades de tratamento. Quando a doença está localizada, as chances de cura são maiores. Quando se espalha para outros órgãos, o tratamento tende a ser mais complexo, embora existam terapias eficazes e situações em que ainda é possível tratar com intenção curativa.

          “Quando o câncer está localizado, as chances de cura são elevadas. Para dimensionar, dados americanos mostram sobrevida relativa em cinco anos em torno de 90% nessa situação. Essa medida não é uma garantia individual de cura, mas demonstra a importância do diagnóstico precoce. Quando a doença se espalha, o tratamento costuma ser mais complexo e as chances de cura diminuem. Ainda assim, existem tratamentos eficazes e situações selecionadas em que se pode tratar com intenção curativa, mesmo com metástases.
          Sangramento recorrente, anemia inexplicada, perda de peso e mudanças persistentes na evacuação exigem avaliação breve. Sangramento volumoso, desmaio ou dor abdominal intensa com vômitos, distensão e dificuldade de eliminar gases e fezes exigem atendimento imediato. Minha mensagem é: deixe a vergonha de lado e procure orientação. Falar sobre o intestino faz parte do cuidado com a vida. A prevenção ainda é a melhor escolha e investigar um sinal de alerta não deve ficar para depois”, finalizou.

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