Quando o personagem fica maior que o ator
De Carminha a Félix, personagens da televisão brasileira ganharam vida própria e continuam reconhecidos mesmo longe das obras que os criaram
Há personagens que o público simplesmente não esquece. Carminha, Félix, Dona Hermínia, Agostinho Carrara e Odete Roitman são alguns deles. Foram criados para novelas, séries, teatro ou cinema, mas acabaram ultrapassando suas próprias histórias e virando referências que o público reconhece quase imediatamente.
Carminha é um dos exemplos mais recentes desse fenômeno. Interpretada por Adriana Esteves em Avenida Brasil, a vilã virou um dos principais símbolos da novela de 2012. Seu jeito, suas expressões e sua aparência continuam sendo associados à personagem mesmo 14 anos depois.
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A força foi tamanha que Carminha sobreviveu ao próprio tempo da novela. A trama voltou à televisão em 2026 e a personagem segue sendo lembrada como uma das grandes vilãs da dramaturgia brasileira. Mas ela está longe de ser a única.
Félix virou personagem até fora da novela
Em Amor à Vida, Mateus Solano ganhou um personagem que rapidamente passou a existir além da trama. Félix era vilão, sarcástico, afetado e dono de um repertório próprio de bordões. “Salguei a Santa Ceia” virou expressão popular durante a exibição da novela, enquanto outras frases do personagem também foram reproduzidas nas redes sociais.
O sucesso foi tão grande que Félix ganhou agora uma espécie de segunda vida. Em setembro de 2026, o Globoplay lançou Félix de Amor à Vida, uma versão vertical da novela com 50 capítulos curtos, cada um com cerca de dois minutos, reunindo a trajetória do personagem.
Treze anos depois da estreia de Amor à Vida, o público voltou a acompanhar uma história que já conhecia, desta vez praticamente como se Félix fosse o protagonista de sua própria produção.
Dona Hermínia virou um tipo de mãe
Paulo Gustavo criou Dona Hermínia inspirado em sua própria mãe, Déa Lúcia. A personagem nasceu no teatro em Minha Mãe é uma Peça, chegou ao cinema e se transformou na figura mais associada à carreira do humorista.
A personagem funcionava justamente por parecer maior que uma pessoa específica. Dona Hermínia era exagerada, protetora, intrometida, amorosa e explosiva. O público reconhecia nela mães, tias e vizinhas que poderiam existir em qualquer família.
Paulo Gustavo interpretava Dona Hermínia. Mas Dona Hermínia também passou a representar um tipo de pessoa que o público reconhecia fora da ficção.
Nazaré e a internet
Nazaré Tedesco, de Senhora do Destino, é um dos exemplos mais curiosos dessa transformação. Renata Sorrah criou uma vilã tão marcada por gestos, expressões e características próprias que a personagem continuou circulando muito depois do fim da novela, especialmente na internet.
A escada da casa, a tesoura e as tiradas de Nazaré viraram símbolos da personagem. Anos depois, imagens dela passaram a ser usadas em memes para representar confusão, cálculo, surpresa ou simplesmente uma situação que ninguém sabia explicar.
O mais curioso é que a personagem chegou a uma geração que nem sequer tinha idade para assistir à novela quando ela foi exibida. Renata Sorrah contou que até adolescentes a reconheciam nas ruas como Nazaré por causa da internet e afirmou que a personagem já não pertencia mais a ela. Nazaré deixou de ser apenas uma vilã de Senhora do Destino e virou um idioma próprio da internet.
Agostinho e a “vida própria” na moda
Em A Grande Família, Pedro Cardoso passou 13 anos interpretando Agostinho Carrara. O personagem era malandro, enrolado, cheio de lábia e dono de um figurino tão característico quanto sua personalidade. A série ficou 14 anos no ar e Agostinho se tornou o trabalho mais associado à carreira televisiva de Cardoso.
O personagem continuou sendo reconhecido mesmo depois do fim da série. Em 2021, Agostinho e Beiçola chegaram a ser apontados como referências de moda por uma nova geração, com as camisas estampadas e o visual dos personagens sendo recuperados nas redes sociais.
Agostinho tinha até uniforme. Camisa aberta, estampa chamativa, calça clara e a inseparável pose de quem tinha certeza de que conseguiria convencer alguém de alguma coisa.
Odete Roitman atravessou gerações
Odete Roitman é outro caso especial. Interpretada por Beatriz Segall em Vale Tudo, em 1988, a vilã se tornou um dos papéis mais marcantes da atriz. A personagem ganhou tamanha força que passou a ser lembrada independentemente da novela e continuou existindo no imaginário popular décadas depois.
Em 2025, quando Vale Tudo ganhou um remake, Odete voltou à televisão, dessa vez interpretada por Débora Bloch. A atriz mudou mas a personagem permaneceu. É uma das provas mais claras de que determinadas criações deixam de pertencer exclusivamente ao intérprete.
Quando o público passa a carregar o personagem
Existe uma diferença entre um personagem famoso e um personagem que ganhou vida própria. O primeiro é lembrado dentro da obra.O segundo aparece fora dela.
Carminha pode ser reconhecida em um meme. Félix continua sendo lembrado por seus bordões. Agostinho virou referência visual. Dona Hermínia passou a representar um tipo de mãe. Odete Roitman atravessou décadas e ganhou uma nova intérprete. O ator cria a voz, o gesto e o rosto. Mas é o público que decide o que continua vivendo depois que a novela acaba.
Essa é a maior força que um personagem pode ter. Ser tão bem construído e interpretado que, depois de um tempo, ninguém mais lembra apenas do ator pessoa física. Apenas dele.
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