Dar nota zero a uma atriz iniciante é cafona, ultrapassado e não ajuda a formar novos talentos
Crítica à atriz de “Quem Ama Cuida” provoca reação de colegas de elenco e levanta uma discussão: como cobrar experiência de quem ainda está começando?
*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião do portal LeoDias.
Duda Almeida, a Andréa de “Quem Ama Cuida”, recebeu nota zero nesta quarta-feira (7) na coluna Play, do jornal O Globo. A justificativa foi justamente o fato de a atriz estar dando os primeiros passos na profissão e, na avaliação da publicação, ainda não ter experiência suficiente para as sequências dramáticas importantes que sua personagem ganhou na novela.
É curioso e contraditório que a falta de experiência seja usada como argumento para condenar alguém que só poderá adquiri-la se tiver exatamente aquilo que Duda está recebendo agora: oportunidade. A crítica é necessária. Faz parte do ofício de quem analisa televisão apontar acertos, erros, limitações e desempenhos. Mas existe uma distância enorme entre analisar uma atriz em formação e decretar um zero justamente quando ela está tendo a chance de aprender fazendo. Ninguém ganha experiência esperando que ela chegue.
Tatá Werneck, que contracena com Duda na novela, discordou publicamente da avaliação. “Ela recebeu uma responsabilidade grande e deu conta demais!”, escreveu a atriz, destacando ainda a dificuldade das cenas assumidas pela colega. E fez uma pergunta que resume bem a questão: “E zero pra uma pessoa ter recebido oportunidade?”
Tatiana Tiburcio também saiu em defesa da atriz e ampliou a discussão ao lembrar que, historicamente, as oportunidades não chegam da mesma maneira para todos. “O que difere uma atriz negra de qualquer outra atriz é a oportunidade”, escreveu, citando Viola Davis. Para ela, Duda recebeu a sua e “agarrou com unhas e dentes”. Tatiana tocou ainda num ponto essencial: “O aprimoramento vem com a prática e a prática só é possível diante da oportunidade ofertada”.
É disso que estamos falando. A teledramaturgia precisa continuar abrindo portas para novos rostos. E abrir uma porta significa também permitir que alguém atravesse por ela ainda sem o domínio de quem acumula dez, 20 ou 30 anos de profissão. Grandes atuações não nascem prontas. São construídas no set, na repetição, na escuta, no erro, na direção, na troca com colegas mais experientes e, sobretudo, na coragem de se expor.
A própria história da televisão brasileira oferece exemplos suficientes disso. Adriana Esteves e Flávia Alessandra, hoje atrizes consagradas e donas de enorme domínio cênico, enfrentaram críticas duríssimas no começo de suas trajetórias. O tempo, o trabalho e — mais uma vez — as oportunidades permitiram que mostrassem do que eram capazes.
Isso não significa que Duda Almeida esteja acima da crítica. Nenhum ator está. Significa apenas reconhecer que existe diferença entre avaliar o trabalho que está na tela e transformar a inexperiência de uma jovem atriz numa espécie de sentença.
Duda está aprendendo diante de milhões de pessoas. É uma posição difícil, vulnerável e também privilegiada. Cabe a ela aproveitar a oportunidade, estudar, ouvir, amadurecer e evoluir. E cabe à crítica acompanhar esse processo, apontando inclusive suas fragilidades quando elas existirem.
Dar nota zero a alguém significa dizer que não houve um único acerto, nenhum mérito, nada que mereça ser reconhecido naquele trabalho. É uma sentença absoluta e, convenhamos, bastante cafona. Além de cruel, parece ultrapassado reduzir a atuação de uma profissional, ainda mais em início de carreira, a um número que equivale a dizer que nada ali tem valor. Criticar é apontar fragilidades, analisar escolhas, reconhecer limitações. O zero não faz isso. O zero simplesmente apaga.
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