Opinião: “Quem Ama Cuida” transforma Andréa em vítima e esquece que ela é golpista
Humilhação promovida por Pilar (Isabel Teixeira) não apaga as mentiras da personagem nem a forma como ela conquistou Rafael (João Vitor Silva)
*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião do portal LeoDias.
Rafael (João Vitor Silva) perdoou Andréa (Duda Almeida) em “Quem Ama Cuida”. E qualquer análise sobre a reconciliação dos dois precisa partir de um ponto que a novela não pode suavizar: Andréa é uma golpista. Pilar (Isabel Teixeira) agiu de forma cruel ao desmascará-la e transformar a revelação em uma humilhação pública, mas o erro da vilã na maneira de expor a verdade não torna essa verdade menos grave.
Andréa construiu sua relação com Rafael sobre uma fraude. Escondeu suas origens, inventou uma condição social que não tinha, omitiu fatos importantes de seu passado e sustentou diante do namorado uma versão de si mesma criada para ser aceita por ele e, principalmente, pela poderosa família Brandão.
Havia ainda um objetivo muito claro de ascensão social. Andréa queria mudar de vida por meio daquele casamento. Enquanto mantinha a farsa, continuava recorrendo ao ex-marido, Joel (Ricardo Teodoro), em busca de dinheiro para bancar a personagem que havia criado.
Isso não significa que seus sentimentos por Rafael também sejam uma mentira. Pelo contrário. Ao longo da história, há elementos suficientes para acreditar que Andréa tenha se apaixonado de verdade. E talvez esteja justamente aí uma das partes mais interessantes da personagem: o que começou como interesse acabou se transformando em amor.
Mas se apaixonar pela vítima não apaga o golpe. Por isso, o perdão de Rafael pode virar um problema para “Quem Ama Cuida”. Ele pode amar Andréa o suficiente para compreender seus erros e decidir lhe dar uma segunda chance. O ponto agora é outro: uma coisa é Rafael perdoá-la; outra é a novela absolvê-la.
Até aqui, Andréa foi desmascarada, humilhada por Pilar, perdeu o noivo e sofreu com as consequências da descoberta de sua farsa. Mas sofrimento, por si só, não é redenção. Redenção pressupõe mudança. E é justamente essa transformação que “Quem Ama Cuida” ainda precisa mostrar.
Andréa tem diante de si a oportunidade de abandonar a obsessão pela ascensão social, buscar independência financeira, trabalhar, reconciliar-se com as próprias origens e, sobretudo, entender que não precisava inventar outra mulher para acreditar que merecia ser amada.
Nesse sentido, o perdão de Rafael pode até funcionar como ponto de partida para um ótimo arco. Ele lhe oferece uma nova chance, mas caberá a Andréa provar que é capaz de viver essa relação sem as mentiras que a sustentaram até aqui.
Caso contrário, haverá uma inversão bastante incômoda. Se Andréa simplesmente retomar o noivado, casar-se com Rafael e entrar definitivamente para a família Brandão sem uma mudança efetiva de comportamento, terá conseguido exatamente aquilo que buscava quando iniciou a farsa. Ou seja: o golpe, no fim das contas, terá dado certo.
Pilar também não sai moralmente engrandecida dessa história. Sua atitude foi movida por preconceito, arrogância e pelo desejo de destruir Andréa. Não havia qualquer intenção nobre em sua denúncia. Mas é importante separar as duas coisas: Pilar errou na forma; Andréa errou na essência. A crueldade de uma não apaga a fraude da outra.
Essa discussão ganha ainda mais peso porque “Quem Ama Cuida” colocou a justiça no centro de sua narrativa. Adriana (Letícia Colin) teve a vida destruída por uma condenação injusta e precisou pagar por um crime que não cometeu. Ao redor dela, a novela fala sobre culpa, responsabilidade, reparação e as consequências das escolhas de cada personagem.
É diferente, por exemplo, da lógica de “Vale Tudo”, cuja própria premissa provocava o público ao questionar até onde alguém poderia ir para vencer e se quem agia de maneira desonesta necessariamente pagaria por isso.
“Quem Ama Cuida” estabeleceu outra régua moral. Andréa não precisa terminar sozinha, pobre ou infeliz para que a novela faça justiça à sua trajetória. Tampouco Rafael precisa retirar o perdão que já concedeu. A personagem precisa apenas mostrar que entendeu o tamanho daquilo que fez e que é capaz de mudar.
O final feliz pode, sim, ser ao lado de Rafael. Mas não pode ser exatamente o mesmo final que Andréa tentou conquistar pela mentira sem que, antes, ela aprenda a construí-lo pela verdade.
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