Opinião: “Fantástico” escala Felca e acende debate sobre quem pode falar sobre saúde mental
Estreia do quadro "Sobre Nós" divide opiniões e levanta questionamentos sobre autoridade na TV
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O “Fantástico” resolveu dar um passo que a TV aberta vinha ensaiando há algum tempo e finalmente concretizou: colocar um influenciador digital como rosto de um quadro com temática sensível e de interesse público. A estreia de “Sobre Nós”, no último domingo (22), com Felca no comando, deixa isso claro.
A proposta é relevante, urgente e, sobretudo, alinhada com o público que a TV tenta reconquistar: os jovens. Falar de ansiedade social, pressão estética, medo do futuro e relações frágeis nunca foi tão necessário. Mas a escolha de Felca abriu uma discussão que vai além do conteúdo e escancara uma tensão antiga entre internet e televisão: quem tem autoridade para falar sobre determinados temas?
Nas redes sociais, a reação veio rápida. Parte do público celebrou a iniciativa de trazer uma voz próxima da geração que vive esses dilemas na pele. Outra parte questionou a ausência de uma formação acadêmica do influenciador para conduzir um quadro sobre saúde mental.
E é justamente aí que está o ponto central da discussão. A TV não escolheu Felca por acaso; escolheu porque ele já ocupa esse lugar de fala na internet. Ele construiu relevância debatendo comportamento, criticando dinâmicas sociais e traduzindo temas complexos para uma linguagem acessível. Ou seja: a autoridade dele não vem do diploma, vem da audiência.
Só que a televisão opera por outra lógica. Historicamente, quando o assunto é saúde, comportamento ou psicologia, o público foi condicionado a ver especialistas — médicos, psicólogos, pesquisadores — como protagonistas. Ao colocar um influenciador nesse lugar, o “Fantástico” mexe nessa estrutura. E isso, inevitavelmente, gera ruído.
Mas o formato do quadro tenta equilibrar esse risco: Felca não fala sozinho. Ele escuta especialistas, traz relatos e funciona mais como um mediador — alguém que representa o público e conduz a conversa.
Ainda assim, a escolha revela uma mudança importante: a Globo entende que, hoje, credibilidade também passa pela identificação. E talvez seja esse o maior acerto — e ao mesmo tempo o maior risco — de “Sobre Nós”. Se por um lado Felca aproxima o tema de quem mais precisa ouvi-lo, por outro coloca sobre ele uma responsabilidade que a TV sempre delegou a especialistas.
No fim das contas, a estreia não foi apenas sobre ansiedade social. Foi sobre algo maior: a disputa entre a autoridade tradicional da televisão e a nova autoridade construída na internet. E essa conversa… está só começando.
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