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Opinião: Globo arrisca ao apostar em tantos rostos desconhecidos em “Avenida Brasil 2”

Anúncio do elenco provoca estranheza nas redes sociais e levanta uma questão: quem vai dividir com os protagonistas o peso de continuar um dos maiores sucessos da TV?

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*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião do portal LeoDias.

          A Globo tem um desafio enorme pela frente com “Avenida Brasil 2”. Não basta reunir Carminha (Adriana Esteves), Tufão (Murilo Benício), Jorginho (Cauã Reymond) e Nina (Débora Falabella) e acreditar que a memória afetiva do público fará o restante do trabalho. Uma novela das nove, ainda mais a continuação de um dos maiores fenômenos da teledramaturgia brasileira, precisa de um elenco forte em todos os seus núcleos. E foi justamente essa preocupação que me veio à cabeça ao acompanhar o anúncio dos novos atores da produção, nesta segunda-feira (12).

          A quantidade de rostos pouco conhecidos do grande público chamou a atenção nas redes sociais. Houve quem perguntasse quem eram aqueles artistas, quem ironizasse a escalação e até quem demonstrasse preocupação com o resultado da novela. Algumas manifestações foram desrespeitosas, é verdade. Mas, por trás da reação, existe uma discussão legítima sobre a estratégia da emissora.

          Antes de qualquer coisa, é preciso fazer uma distinção importante: ator desconhecido não é sinônimo de ator ruim. Muitos dos profissionais anunciados têm experiência no teatro, no cinema ou em outras produções audiovisuais. O fato de não serem famosos não diminui suas trajetórias nem sua capacidade de entregar bons personagens. E ninguém deveria ser condenado antes mesmo de entrar em cena.

          O problema não está em abrir espaço para novos talentos. Está na proporção dessa aposta em uma produção que carrega tamanha responsabilidade.

          Adriana Esteves, Murilo Benício, Cauã Reymond e Débora Falabella são nomes extraordinários. Conhecem seus personagens, têm talento de sobra e participaram diretamente da construção do fenômeno que foi “Avenida Brasil”, em 2012. Mas nem eles podem carregar uma novela inteira nas costas. Não é justo com os atores e muito menos com a própria história.

          Uma novela das nove não se sustenta apenas com quatro protagonistas. Precisa de bons coadjuvantes, de personagens secundários capazes de roubar a cena, de núcleos que despertem interesse independentemente da trama central. Precisa de atores que entrem em cena e provoquem reconhecimento, curiosidade, identificação. E, nesse aspecto, a presença de veteranos faz diferença.

          Basta lembrar da primeira “Avenida Brasil”. O sucesso não ficou restrito à rivalidade entre Nina e Carminha. Havia um elenco de enorme força, com nomes como José de Abreu, Vera Holtz, Marcos Caruso, Eliane Giardini, Débora Bloch, Heloísa Périssé e Alexandre Borges. Cada núcleo tinha personalidade, personagens marcantes e intérpretes capazes de sustentar suas próprias histórias. O público não acompanhava apenas uma vingança. Acompanhava um universo inteiro.

          É esse equilíbrio que me preocupa na continuação.

          Entre os nomes anunciados agora estão Nívea Maria, Evelyn Castro, Joaquim Lopes, Valentina Bulc, Letícia Lima, Igor Fernandez, Digão Ribeiro, Rafael Saraiva e vários outros artistas ainda pouco familiares ao telespectador das nove. Há profissionais experientes nessa relação, evidentemente. Mas também existe uma quantidade expressiva de apostas que precisarão conquistar o público praticamente do zero.

          Não se trata de defender que uma novela seja formada apenas por estrelas consagradas. Seria um pensamento ultrapassado e injusto com uma geração inteira de artistas que precisa de oportunidades. A televisão tem obrigação de revelar talentos, renovar seus elencos e permitir que novos rostos ocupem espaços importantes. Só que renovação não pode significar abrir mão da experiência. As duas coisas precisam caminhar juntas.

          E há uma diferença fundamental entre lançar uma novela inédita, na qual todos os personagens começam do mesmo ponto, e produzir a continuação de um fenômeno. “Avenida Brasil 2” já chega cercada de expectativas, comparações e cobranças. O público sabe o que aquela história foi capaz de entregar. Naturalmente, vai esperar algo à altura.

          A volta de Heloísa Périssé como Monalisa, por exemplo, é uma ótima notícia. Conforme esta coluna antecipou, a atriz acertou sua participação e voltará a interpretar a personagem, embora por pouco tempo. É justamente o tipo de presença que ajuda a estabelecer uma ponte entre a história original e a nova fase. Mas uma participação curta não resolve a necessidade de fortalecer o conjunto.

          É claro que João Emanuel Carneiro pode surpreender. Um bom texto transforma personagens aparentemente secundários em grandes acontecimentos. A direção também tem papel fundamental nesse processo. E alguns dos atores que hoje provocam perguntas nas redes sociais podem muito bem terminar a novela como revelações.

          Mas por que colocar tantas fichas nessa possibilidade justamente em uma produção que já nasce com tamanha pressão?

          A Globo conhece como poucas empresas a importância de um elenco bem equilibrado. Sabe que grandes novelas são construídas por protagonistas, antagonistas, coadjuvantes e personagens populares que, muitas vezes, conquistam tanto espaço quanto os nomes principais.

          “Avenida Brasil 2” não precisa ser uma reunião de celebridades. Precisa, porém, de um elenco que transmita a dimensão do projeto. De veteranos que possam dividir a responsabilidade com as estrelas que estão voltando. De atores reconhecidos que ajudem a dar força aos novos núcleos, enquanto os talentos menos conhecidos encontram seu espaço.

          A renovação é necessária. O risco está em confundir renovação com a ideia de que quatro grandes estrelas bastam para sustentar todo o resto.

          A primeira “Avenida Brasil” não virou um fenômeno apenas por causa de Nina e Carminha. Virou um fenômeno porque havia uma novela inteira acontecendo ao redor delas. E é justamente disso que a Globo não pode se esquecer.

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