Opinião: Globo usa nostalgia e estrelas populares para reconquistar público em 2027
Upfront revela estratégia da emissora de recuperar antigos telespectadores e atrair uma nova geração, com “Avenida Brasil 2”, Maisa e Marina Ruy Barbosa entre as principais apostas
*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião do portal LeoDias.
O Upfront 2027, realizado pela Globo na noite desta quarta-feira (14), em São Paulo, deixou uma mensagem bastante clara: a emissora quer reconquistar o público que já teve, sem abrir mão de conquistar aquele que ainda não tem. E, para isso, decidiu apostar em duas frentes que parecem caminhar muito bem juntas: a nostalgia e a força de estrelas capazes de mobilizar diferentes gerações.
É justamente aí que está a inteligência dessa escalação. Mel Maia funciona como uma ponte entre duas gerações. Quem acompanhou “Avenida Brasil” em 2012 se lembra daquela menina que enfrentava Carminha (Adriana Esteves). Quem não assistiu à novela original conhece a atriz por seus trabalhos mais recentes. A Globo parece ter entendido que a nostalgia, sozinha, não basta. É preciso atualizá-la.
Essa mesma lógica ajuda a explicar a escolha de Maisa para protagonizar “Tempos de Glória”, novela das seis que vai entrar no lugar de “Lá na Minha Terra”. A atriz já passou pela teledramaturgia da Globo, mas agora recebe uma responsabilidade ainda maior: liderar uma produção da emissora.
E Maisa não é apenas uma atriz conhecida. É uma personalidade que cresceu diante das câmeras, construiu uma relação direta com o público e mantém uma presença muito forte nas redes sociais. Sua popularidade atravessa diferentes plataformas e não depende exclusivamente da televisão.
Ao colocá-la à frente de uma novela, a Globo aposta justamente nesse poder de mobilização. Quer atrair um público que acompanha Maisa desde a infância, que consome seu conteúdo na internet e que talvez não tenha o hábito de ligar a televisão todos os dias para acompanhar uma trama. É uma aposta no alcance da artista, mas também na possibilidade de transformar seguidores em telespectadores.
O retorno de Marina Ruy Barbosa à dramaturgia da emissora também merece atenção nessa leitura. Depois de não conseguir assumir o protagonismo de “Paraíso Perdido”, a atriz foi escolhida para liderar “Romance em SP”, a próxima novela das dez, faixa que voltará à programação da Globo em 2027.
Marina é outro nome que reúne características importantes para essa nova fase. Tem uma trajetória consolidada na televisão, protagonizou novelas de grande repercussão e continua despertando interesse fora da dramaturgia, especialmente nas redes sociais e no universo da moda.
Sua volta, portanto, não representa apenas o reencontro de uma estrela com a casa onde construiu boa parte da carreira. É também uma maneira de valorizar um rosto conhecido do grande público em uma faixa que a emissora decidiu recuperar. E há algo bastante simbólico nisso: enquanto resgata uma novela de enorme sucesso, a Globo também recupera um horário tradicional de sua programação.
O que se viu no Upfront foi uma emissora disposta a usar a própria história como ferramenta para construir o futuro. Durante muito tempo, a televisão aberta foi responsável por criar estrelas e transformar atores em fenômenos nacionais. Hoje, essa relação mudou. O público está espalhado entre o streaming, as redes sociais, os vídeos curtos e inúmeras outras possibilidades de entretenimento. A televisão já não pode simplesmente esperar que todos estejam diante da tela no horário marcado. Precisa oferecer motivos para que estejam.
É nesse cenário que “Avenida Brasil 2”, Maisa e Marina Ruy Barbosa fazem tanto sentido dentro de uma mesma estratégia. São apostas diferentes, mas com um objetivo em comum: despertar interesse, provocar conversas e transformar a curiosidade em audiência.
A nostalgia oferece o reconhecimento imediato. Os nomes populares ajudam a ampliar o alcance. E a combinação dessas duas forças pode fazer com que pessoas de idades diferentes encontrem razões para acompanhar a mesma programação.
Isso não significa, evidentemente, que o sucesso esteja garantido. Uma continuação precisa justificar sua existência, uma estrela popular não sustenta sozinha uma novela e nenhum fenômeno das redes sociais se transforma automaticamente em audiência de televisão.
No fim das contas, será sempre a qualidade das histórias que determinará se o público continuará acompanhando as produções depois da estreia.
Mas o Upfront deixou evidente que a Globo está olhando com atenção para o comportamento do telespectador. E talvez essa seja a principal mensagem da programação de 2027: mais do que apresentar novidades, a emissora quer voltar a ser assunto, despertar saudade em quem se afastou e criar vínculos com quem ainda não descobriu o prazer de acompanhar uma novela.
A Globo parece ter percebido que, para conquistar o futuro, pode ser necessário revisitar o passado. Mas sem esquecer que uma nova geração precisa se reconhecer nas histórias que estão sendo contadas.
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