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Crítica: Entre o silêncio e o afeto, Brad Pitt sustenta “Coração Selvagem” ao lado de um cão

Longa aposta menos na guerra e mais no vínculo entre um ex-combatente e seu cachorro

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          * Contém spoilers

          À primeira vista, o filme “Coração Selvagem”, protagonizado pelo galã Brad Pitt, parece seguir um caminho relativamente simples. James, um militar da reserva, tenta sobreviver ao lado de Odin, um cachorro treinado para situações de guerra. Mas o filme guarda sua principal força para o terço final, quando deixa de ser apenas uma história de sobrevivência e assume de vez o peso emocional da relação entre os dois. Para quem tem cachorro ou mantém um vínculo forte com animais, vale o aviso: é bom levar seus lencinhos para a sessão.

          Pitt sustenta praticamente todo o longa sozinho, mas Odin impede que essa solidão narrativa se torne vazia. O cachorro reage de maneira tão expressiva que, em vários momentos, funciona quase como um segundo protagonista humano. Quando James oferece comida primeiro a Odin, quando observa um gesto carinhoso do animal ou quando percebe algo errado, nós acompanhamos suas reações. Pitt sorri, e sorrimos com ele; fica apreensivo, e a tensão imediatamente passa para quem está assistindo. É essa sintonia entre ator e animal que dá vida ao filme.

          Veja as fotos

          Reprodução: YouTube/@ParamountBrasil
          Cena de "Coração Selvagem"Reprodução: YouTube/@ParamountBrasil
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          Cena de "Coração Selvagem"Reprodução: YouTube/@ParamountBrasil
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          Cena de "Coração Selvagem"Reprodução: YouTube/@ParamountBrasil
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          Cena de "Coração Selvagem"Reprodução: YouTube/@ParamountBrasil
          Divulgação: ParamountBrasil
          Pôster do filme "Coração Selvagem"Divulgação: ParamountBrasil

          O longa também encontra espaço dentro de uma tendência recente de produções em que animais ultrapassam a função de simples coadjuvantes. Assim como “Caramelo” explorou a relação afetiva entre homem e cachorro e “Anatomia de uma Queda” fez de Snoop uma presença inesquecível, “Coração Selvagem” entende que um animal pode carregar uma narrativa sem precisar ser humanizado. No caso de Odin, há ainda outra camada: ele representa os cães treinados para conflitos armados e funciona como uma homenagem silenciosa aos animais que também são enviados para a guerra e sofrem suas consequências.

          Talvez a principal fragilidade esteja justamente no pouco que sabemos sobre James e Odin antes da jornada principal. O passado dos dois aparece apenas em flashes: a guerra, a perda de soldados, o atendimento médico e o trauma compartilhado. J. K. Simmons surge no início como uma espécie de ponte para esse passado, fazendo perguntas que ajudam o espectador a entender melhor quem são aqueles dois. É por meio desse trecho que descobrimos que Odin foi maltratado por homens, perdeu uma pata e possui dentes de titânio. Mais tarde, uma carta deixada pelo personagem de Simmons sintetiza bem o que o cão se tornou depois de encontrar James: “O amor daquele homem criou raízes dentro dele”.

          A atuação de Pitt ganha força justamente porque James é um personagem construído pelo cansaço. O ator carrega no corpo a exaustão de um homem que sobreviveu à guerra, mas parece nunca ter realmente voltado dela. Isolado no Alasca, debilitado e acompanhado apenas por Odin, ele precisa enfrentar uma sucessão de situações extremas. Depois de sofrer uma parada cardíaca durante o voo, o avião cai e Odin quase morre. Mais tarde, vêm o urso, os lobos, a falta de suprimentos e o rio. A cada obstáculo, o filme reforça uma dinâmica bonita: ora James salva Odin, ora Odin salva James.

          É nessa troca de cuidados que “Coração Selvagem” encontra sua parte mais delicada. James trata Odin como um pai trataria um filho, mesmo sabendo que aquele animal já enfrentou situações muito piores do que qualquer perigo daquele momento. Em uma cena, se preocupa com uma faca e diz ao cachorro para ter cuidado; em outra, controla Odin diante de um urso para impedir que os dois sejam atacados. Esses pequenos gestos fazem mais pelo filme do que grandes discursos. Me lembrou o excelente “O Regresso”, um filme também silencioso com Leonardo DiCaprio; e “O Náufrago”, com Tom Hanks. Seria Odin a personificação de Wilson? De qualquer forma, a relação entre James e o cachorro é construída menos por palavras e mais pela repetição do cuidado.

          O desfecho pode ser resumido naquela famosa frase: “Aonde o filho chora e a mãe não vê”. Já sem forças, James percebe que não conseguirá chegar à rodovia e deixa uma mensagem presa à roupa de Odin. Sob a aurora boreal, ele morre abraçado ao cachorro, enquanto o animal resiste em abandonar o corpo. Quando Odin finalmente segue em frente e reencontra a mulher apresentada no início do filme, a carta fecha o arco dos dois. A frase “só mostrei guerra a ele, e ele mostrou amor e confiança” resume tudo o que “Coração Selvagem” quer dizer. No fim, não é um filme sobre um homem sobrevivendo com um cachorro, mas sobre um homem que reafirma que aquele cachorro talvez tenha sido quem o manteve humano por tantos anos.

          Para quem gosta de filmes com poucos diálogos, presença cênica, emoção e tensão, vale a pena o ingresso. “Coração Selvagem” estreia nesta quinta-feira (24/9) nos cinemas.

          Nota: 10/10

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