Lito Sousa foi o primeiro humano a receber remédio trazido em operação com helicóptero
Influenciador enfrentava doença rara e recebeu substância experimental após mobilização que envolveu Anvisa, Receita Federal e transporte aéreo de urgência
Antes da morte de Lito Sousa, confirmada nesta quinta-feira (1º/10), a luta do influenciador contra a doença de Creutzfeldt-Jakob mobilizou familiares, médicos, autoridades e profissionais da aviação em uma corrida contra o tempo. Sem tratamento comprovado para a condição, ele se tornou o primeiro ser humano a receber uma substância experimental que precisou chegar ao hospital em uma operação especial, com direito a transporte de helicóptero.
O medicamento ALN-6457 foi autorizado excepcionalmente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 4 de setembro. Naquele momento, a substância ainda estava em fase pré-clínica e não havia sido testada formalmente em seres humanos para o tratamento da doença de Creutzfeldt-Jakob. Lito, então com 59 anos, havia sido aceito em um programa de uso compassivo mantido por uma farmacêutica no exterior. A modalidade permite, em situações específicas, o acesso individual a tratamentos ainda experimentais quando não existem alternativas terapêuticas disponíveis.
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Remédio saiu do avião direto para o helicóptero
A chegada da substância ao Brasil exigiu uma logística incomum. O composto desembarcou no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, na noite de 11 de setembro, em um voo vindo de Nova York, Estados Unidos. Receita Federal e Anvisa haviam preparado antecipadamente os procedimentos de entrada no país e conseguiram liberar a carga poucos minutos depois do pouso. A pressa tinha uma razão: segundo a Receita, o potencial terapêutico do produto diminuía com o passar das horas.
Depois de ser retirado da aeronave, o medicamento foi colocado diretamente em um helicóptero e levado ao Einstein Hospital Israelita, onde Lito estava internado. A operação eliminou etapas intermediárias para reduzir o tempo de transporte. Mila Seidl, esposa do influenciador, contou posteriormente que havia uma janela de aproximadamente três horas para que a medicação fosse administrada. O mau tempo em São Paulo e problemas registrados durante o transporte internacional aumentaram a tensão em torno da chegada.
Primeiro ser humano a receber a substância
O caso de Lito chamou atenção também pelo caráter inédito do tratamento. O ALN-6457 utiliza uma tecnologia de interferência de RNA que busca reduzir a produção da proteína priônica. Essas proteínas, quando assumem uma forma anormal, estão relacionadas à progressão das doenças priônicas, entre elas a de Creutzfeldt-Jakob. Até então, os estudos estavam restritos à fase anterior aos testes clínicos em humanos.
A autorização concedida para Lito não significava que o medicamento estivesse aprovado ou que houvesse comprovação de eficácia, mas permitiu que ele fosse utilizado de maneira excepcional diante da gravidade e da rápida evolução da doença. A aplicação ocorreu sem intercorrências, segundo Mila. O influenciador já estava internado na UTI devido à piora causada pela própria doença quando recebeu a substância.
Diagnóstico veio depois de câncer de próstata
A sequência de problemas de saúde havia começado meses antes. Em julho, Lito revelou que havia sido diagnosticado com um adenocarcinoma de próstata de agressividade intermediária. O câncer foi descoberto durante exames de rotina e, inicialmente, o plano era passar por uma cirurgia.
No mesmo período, porém, ele começou a apresentar sintomas neurológicos. Entre eles estavam dormência e perda de movimentos no braço esquerdo. A princípio, os médicos investigaram um processo inflamatório no sistema nervoso central. Em agosto, novos exames levaram ao diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob, uma condição neurodegenerativa rara, progressiva e fatal provocada por príons. Não existe atualmente um tratamento capaz de interromper comprovadamente sua evolução.
Família buscou alternativas no exterior
Após o diagnóstico, Mila iniciou uma mobilização para tentar incluir Lito em pesquisas experimentais realizadas fora do Brasil. Algumas possibilidades nos Estados Unidos não avançaram porque ele não preenchia os critérios necessários ou porque não havia vagas disponíveis naquele momento. A família continuou procurando alternativas até conseguir acesso ao programa de uso compassivo do ALN-6457.
Em 25 de setembro, pouco mais de dez dias depois da aplicação, Mila precisou desmentir notícias de que o marido teria recuperado movimentos. Ela afirmou que, até aquele momento, não havia melhora clínica e pediu cautela com informações não divulgadas oficialmente pela família. O efeito da substância ainda era desconhecido e os médicos previam um período maior de acompanhamento para avaliar a evolução do quadro. Por isso, não havia base científica para atribuir melhora, piora ou o desfecho da doença ao medicamento experimental.
Conhecido pelo canal “Aviões e Músicas”, Lito construiu a carreira explicando de forma acessível o funcionamento das aeronaves e episódios importantes da aviação. Antes de se tornar criador de conteúdo, ele trabalhou por mais de três décadas como mecânico de aeronaves.
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