Mulheres acusam “golpista do TikTok” de estelionato sentimental; prejuízo ultrapassa R$ 300 mil
Portal LeoDias teve acesso a comprovantes, vídeos, boletim de ocorrência e notícia-crime; Eduardo de Sousa Alves aparece como averiguado no caso, mas ainda não foi indiciado
Mulheres ouvidas pelo portal LeoDias acusam Eduardo de Sousa Alves, conhecido nas redes sociais pelo perfil “TikTok do Edu”, de se aproximar delas pela internet, conquistar sua confiança e obter dinheiro a partir de relações afetivas ou propostas profissionais. Em um dos casos, documentos apontam repasses superiores a R$ 300 mil em cerca de dois meses. A reportagem teve acesso a comprovantes bancários, conversas, vídeos, notificações extrajudiciais, boletim de ocorrência e uma notícia-crime encaminhada à Polícia Civil.
Algumas das denunciantes passaram a se referir a Eduardo nas redes sociais como o “golpista do TikTok”. Uma das mulheres ouvidas pela reportagem pediu para ter a identidade preservada e será identificada apenas pelas iniciais J.P. Brasileira e residente na Austrália, ela afirma ter conhecido Eduardo em outubro de 2025, durante transmissões ao vivo na rede social chinesa. Segundo ela, os dois iniciaram uma amizade que, posteriormente, evoluiu para um relacionamento virtual, com declarações amorosas e planos de um encontro presencial. “A gente nunca acha que isso vai acontecer com a gente”, relatou.
Veja as fotos
Foi nesse período, segundo o relato, que também começaram os pedidos e as propostas envolvendo dinheiro. J.P. diz que Eduardo lhe apresentou a possibilidade de participar de uma agência ligada ao TikTok e, posteriormente, de outros negócios, incluindo uma sociedade envolvendo comércio de tilápias e a compra de um veículo. Documentos encaminhados ao portal LeoDias relacionam transferências feitas por J.P. que ultrapassam R$ 320 mil.
Na notícia-crime apresentada por sua defesa, o prejuízo é estimado em cerca de R$ 324 mil. Entre os valores discriminados estão R$ 41 mil relacionados à suposta agência, R$ 7,5 mil para computadores, R$ 11 mil destinados a equipamentos e aproximadamente R$ 150 mil para a aquisição de um Jeep Compass, além de outros repasses.
A advogada Daniele Farah Soares, ex-mulher de Eduardo, também teve acesso aos comprovantes enviados por J.P. e confirmou ao portal LeoDias que os valores analisados por ela ultrapassavam R$ 320 mil. Daniele autorizou ser identificada na reportagem e ressaltou que, diferentemente dos relatos de outras mulheres que chegaram até ela, no caso de J.P., teve acesso direto à documentação. “Sobre o que eu passei, eu confirmo tudo. Sobre as meninas, eu sei o que elas me disseram. Eu tenho como missão de vida ajudar mulheres a não passar pelo que eu passei”, disse.
Além das transferências feitas fora da plataforma, J.P. estima ter gasto entre R$ 550 mil e R$ 600 mil em presentes virtuais destinados a Eduardo durante as transmissões. Esse montante não faz parte dos aproximadamente R$ 324 mil relacionados nos comprovantes bancários e corresponde, até o momento, a uma estimativa apresentada pela própria denunciante.
J.P. afirma que alguns dos pedidos aconteciam durante ou nos bastidores das transmissões. “Ele vinha no meu privado e falava que precisava de mais moedas. Fazia todo um sentimental, falava do filho, dizia que não tinha dinheiro e eu acabava ajudando”, relatou.
Imagens íntimas também são alvo de investigação
A disputa envolvendo J.P. não se restringe aos valores financeiros. Na notícia-crime apresentada por seu advogado, Thiago Gebaili de Andrade, a defesa pede que sejam investigadas suspeitas de estelionato, extorsão e divulgação de material íntimo sem consentimento, entre outros possíveis crimes.
Segundo o documento, Eduardo teria obtido imagens íntimas de J.P. durante videochamadas privadas e, posteriormente, ameaçado divulgá-las caso não recebesse mais dinheiro. A defesa afirma ainda que parte do conteúdo teria sido enviada a terceiros após a negativa da mulher. J.P. encaminhou à reportagem vídeos e registros que, segundo ela, mostram ameaças e ataques posteriores nas redes sociais.
Thiago confirmou ao portal LeoDias que existe um procedimento criminal relacionado às acusações. Segundo o advogado, Eduardo aparece atualmente na condição de averiguado e ainda não foi indiciado. Além do procedimento criminal, há uma ação cível pública em tramitação contra Eduardo de Sousa Alves, que pode ser consultada nos sistemas do Judiciário. A existência da investigação e das medidas judiciais não significa que as acusações tenham sido reconhecidas definitivamente pela Justiça.
Segunda mulher relata proposta profissional
O portal LeoDias também conversou com Ediuza Gonçalves da Silva, profissional de marketing digital que vive em Fortaleza (CE). Diferentemente do vínculo afetivo relatado por J.P., Ediuza afirma que sua relação com Eduardo começou a partir de uma proposta profissional. Segundo ela, ele foi até Fortaleza e propôs que os dois desenvolvessem juntos uma mentoria.
Ediuza afirma ter criado identidade visual, portfólio, materiais de divulgação, conteúdos para redes sociais e parte da estrutura do projeto. Pouco depois, segundo seu relato, Eduardo apresentou uma nova oportunidade: a participação em uma agência relacionada ao TikTok. Para entrar no negócio, ela deveria investir R$ 10 mil. “Eu seria sócia de uma agência no TikTok. Achei o máximo porque eu não conhecia muito”, contou Ediuza em vídeo publicado nas redes sociais.
“Eu sou mãe de dois adolescentes e de uma criança. Sou a mãe e a provedora de toda a minha casa e de todos os meus filhos. Para nós, um rendimento extra e algo a mais é muito importante, mas eu não sabia que estava prestes a cair num golpe. Pedi 4 mil reais emprestados à minha mãe para completar esse valor e, assim, paguei ao Eduardo os 10 mil reais para começar esta agência”, continuou.
Ela afirma ter feito o pagamento e descoberto, posteriormente, que a estrutura proposta não funcionaria da forma como havia sido apresentada. Ediuza registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil do Ceará para que os fatos sejam investigados. Em nota enviada ao portal, a advogada Thaís Silva Pereira informou que a cliente alega um prejuízo patrimonial de R$ 14,2 mil.
Desse total, R$ 10 mil correspondem ao valor transferido no contexto da proposta de parceria e outros R$ 4,2 mil aos serviços profissionais que Ediuza afirma ter prestado. Antes do registro das medidas criminais, a defesa também enviou uma cobrança a Eduardo buscando o ressarcimento dos valores.
Segundo Thaís, Ediuza tomou conhecimento posteriormente de outras mulheres que afirmam ter sofrido prejuízos financeiros em circunstâncias semelhantes, envolvendo aproximação pelas redes sociais, criação de vínculo de confiança e apresentação de propostas profissionais. “Essas informações, juntamente com a documentação reunida, estão sendo encaminhadas às autoridades competentes para a devida apuração”, informou a advogada.
Thaís acrescentou que estão sendo adotadas medidas tanto na esfera criminal quanto na busca pela reparação financeira de Ediuza, mas ressaltou que não antecipa conclusões sobre eventual responsabilidade criminal. Até o momento, ainda não foi ajuizada uma ação de cobrança relacionada aos R$ 14,2 mil.
Outros relatos
Durante a apuração, tanto Ediuza quanto Daniele indicaram à reportagem a existência de outras mulheres que afirmam ter passado por situações semelhantes. Algumas relatam aproximações afetivas, enquanto outras mencionam propostas comerciais, empréstimos ou investimentos. O portal LeoDias está ouvindo essas pessoas individualmente e analisando a documentação apresentada.
Na notícia-crime assinada por Thiago, a defesa afirma que “há indícios de que outras mulheres também foram vítimas do noticiado, conforme relatos em grupo de WhatsApp formado por vítimas”.
O portal entrou em contato diretamente com Eduardo de Sousa Alves e informou que apurava as acusações e os documentos relacionados ao caso. Até a publicação desta reportagem, Eduardo não respondeu ao pedido de posicionamento. O espaço permanece aberto para manifestação.
Em uma notificação extrajudicial anterior, encaminhada a J.P., Eduardo já havia negado parte das acusações feitas por ela nas redes sociais e contestado a versão de que teria mantido uma aproximação afetiva com o objetivo de obter dinheiro. A manifestação anterior, no entanto, não responde especificamente ao conjunto de documentos, relatos e acusações reunidos nesta reportagem.
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