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Por que o preço do ovo de Páscoa não para de subir? Entenda o que está por trás

Crise global do cacau, custos da cadeia produtiva e estratégia de mercado ajudam a explicar por que o chocolate pesa cada vez mais no bolso

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          Apesar da queda recente no preço do cacau no mercado internacional, os ovos de Páscoa seguem com valores elevados em 2026, um cenário que tem gerado questionamentos entre consumidores. Dados da plataforma Trading Economics mostram que a tonelada da commodity, que chegou a cerca de US$ 12.600 em abril de 2024, recuou para aproximadamente US$ 3.100 em março deste ano, voltando a patamares mais próximos da média histórica.

          O movimento indica uma forte disparada seguida de queda acentuada. Ainda assim, esse alívio não se refletiu nas prateleiras; e há explicações para isso. O portal LeoDias foi atrás de fontes para entender o motivo do preço do chocolate não acompanhar o mercado da matéria-prima.

          Veja as fotos

          Crédito: Fabio Pozzebom - Agência Brasil
          Cacau, matéria-prima do chocolateCrédito: Fabio Pozzebom - Agência Brasil
          Crédito: Reprodução Internet
          Ovos de chocolateCrédito: Reprodução Internet
          Crédito: Divulgação Instituto Fecomércio
          Ovos de Páscoa em supermercadoCrédito: Divulgação Instituto Fecomércio
          Crédito: Divulgação Chocolat Du Jour
          Ovo Feliz PáscoaCrédito: Divulgação Chocolat Du Jour
          Crédito: Divulgação Louis Vuitton
          Chocolate Egg BagCrédito: Divulgação Louis Vuitton

          Segundo o economista Alex Bristot, existe uma estratégia comercial da indústria para o preço subir. “Você não vende chocolate. Você vende um produto que faz alusão a uma data comemorativa, que é a Páscoa. Claro, tem uma questão religiosa, onde nós temos a morte e ressurreição de Cristo, mas tem a questão comercial dos ovos, do coelhinho da Páscoa. Então, o mercado se aproveita dessa data que criou essa situação onde você não está vendendo chocolate, você está vendendo um símbolo. Uma lembrança de uma pessoa em uma data especial. E é isso que faz com que se distancie o preço em gramas de um chocolate normal do preço em gramas de um ovo de chocolate”, explicou. Ou seja, o apelo emocional permite que o preço por grama seja maior do que o de outros produtos similares.

          Conforme o economista, mesmo com a queda recente do cacau, a indústria pode estar recompondo margens após o período de custos elevados. Ao mesmo tempo, o comportamento do consumidor também influencia: diante dos preços altos, a tendência é migrar para alternativas mais acessíveis. “Um ovo menor é uma característica marcante. Como alternativa que não está em um preço tão alto, você pode buscar coelhinhos de chocolate. Pode ser uma alternativa também para a indústria conseguir diversificar o mercado e o consumidor também ter alternativa melhor de preço”, explicou.

          Na visão do mercado, para a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab), a disparada foi causada principalmente por problemas climáticos severos, como o El Niño, que afetaram grandes produtores africanos responsáveis por cerca de 60% do cacau global. Com a quebra de safra, o preço da matéria-prima chegou a subir até 300% em um curto intervalo. “A tonelada de cacau, cotada na Bolsa de Nova York a US$ 2.500, saltou para US$ 11 mil. Graças a estoques reguladores de que dispunham as moageiras (Cargill, Barry Callebaut), o reflexo no chocolate foi de 10%. No ano seguinte, em 2026, chegou a 26%. Foi a maior alta do cacau em 50 anos: 300% da noite para o dia. Hoje a situação está normalizando”, respondeu a instituição.

          Mesmo com a normalização atual, o setor destaca que o impacto não é imediato. Isso porque a produção de ovos de Páscoa começa meses antes. Em 2026, por exemplo, os produtos vendidos agora foram fabricados com cacau adquirido ainda no período de maior instabilidade.

          Essa lógica é reforçada pelo setor produtivo. De acordo com Matheus Pedrosa, CEO da Fralía Cacau Brasil, a indústria trabalha com contratos antecipados e estoques, o que cria um “atraso” natural entre a queda do preço internacional e o valor final ao consumidor. “A indústria de Páscoa trabalha com antecedência de seis a dez meses, o que significa que o ovo que está hoje na prateleira foi produzido com cacau comprado e travado no pico das incertezas. Além disso, grandes players não compram ‘no dia’, mas operam com contratos futuros para garantir que não falte produto. Por isso, a queda atual na bolsa de Nova York só chegará ao bolso do brasileiro ao longo do ano e, de forma mais perceptível, na Páscoa de 2026”, disse. Na prática, o custo da cadeia produtiva chegou a ficar entre 30% e 40% mais alto na base.

          Além da matéria-prima, outros fatores pesam no preço final. A Abicab aponta que entram na conta a variação cambial, os custos de açúcar e leite e a logística, especialmente relevante no Brasil, onde o transporte exige refrigeração para preservar um produto altamente sensível.

          Do lado da indústria, a resposta tem sido ampliar a oferta e diversificar produtos. Para Pedrosa, um dos equívocos da indústria tradicional está em concentrar esforços apenas na amêndoa, que representa cerca de 6% do fruto. Como alternativa, ele defendeu o conceito de “Cacau Tech”, que propõe ampliar o aproveitamento do cacau, explorando também a polpa, a casca e o mel em mercados de alto valor agregado, como nutracêuticos, suplementos e cosméticos de luxo.

          Nesse cenário, o executivo afirma que a saída para evitar repasses elevados ao consumidor não está em reduzir o uso de cacau no chocolate, mas em diversificar a demanda e extrair valor de todas as partes do fruto. A aposta é clara: manter o consumo aquecido mesmo diante da pressão inflacionária.

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