Do trauma à esperança: pacientes relatam avanços após tratamento experimental com polilaminina
O portal LeoDias conversou com Bruno Freitas e Diogo Barros Brollo, os dois primeiros pacientes a receberem a polilaminina após sofrerem graves lesões medular em acidentes
O tratamento experimental com polilaminina, medicamento desenvolvido pela cientista brasileira Dra. Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), devolveu movimentos para 6 pacientes com tetraplegia que conseguiram na Justiça o direito da aplicação da medicação ainda em fase de testes. Essa “injeção de esperança” é realidade para Bruno Freitas e Diogo Barros Brollo, os dois primeiros pacientes a receberem a substância após sofrerem graves lesões medular em acidentes. O portal LeoDias conversou com eles.
O segundo paciente a receber a polilaminina foi Diogo Barros Brollo, após sofrer uma lesão medular completa, ficando tetraplégico. Quinze dias após receber o tratamento, Diogo começou a retomar a sensibilidade da cintura para baixo, e contou que segue esperançoso para voltar a andar.
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Diogo, de 35 anos, é vidraceiro e, em dezembro do ano passado, 2025, estava trabalhando em Friburgo, Rio de Janeiro, quando caiu de costas de um prédio. A família soube do tratamento à base de polilaminina e entrou com uma ação na Justiça, que foi favorável em poucos dias. O procedimento feito começou a dar resultado 15 dias após, resposta rápida, já que os médicos estimavam ser apenas um ano depois.
Ele começou a ter contrações diante do seu quadro de lesão medular total, sem movimentos e sensibilidade da cintura para baixo. Também começou a retomar sensibilidades em partes das pernas e a conseguir mexer o pé, contrair a coxa e a musculatura do esfíncter. “A sensação [de mexer o pé] foi de muita alegria e ter a esperança de voltar com os movimentos”, disse Diogo, em entrevista ao portal LeoDias.
Casado e pai de três meninas, mais de dois meses após a injeção, ele vê mais algumas novas vitórias, como controlar o xixi sentado, urinar e conseguir prender. O acidente aconteceu no dia 5 de dezembro e Diogo recebeu a polilaminina no dia 17 do mesmo mês.
Sobre ser o segundo paciente a receber o tratamento, ele falou: “Independente da posição de ser o segundo paciente, o importante foi receber o medicamento, tive medo como em passar por qualquer outro procedimento”. Sua rotina, internado no hospital, é com muita fisioterapia.
“Os médicos estão surpresos tanto quanto eu [pela resposta ao tratamento] e dizem que eu tenho potencial para voltar a andar, em nome de Jesus”, declarou.
Bruno voltou à vida normal após 2 anos
Além dele, o portal LeoDias também ouviu o Bruno Freitas, primeiro do mundo a ser tratado com a polilaminina, que iniciou uma vida nova há 8 anos, quando sofreu um acidente de carro, quebrando o pescoço e ficando tetraplético.
O bancário Bruno, de 37 anos, foi o primeiro paciente a receber a polilaminina do mundo. Ele sofreu um grave acidente de carro em abril de 2018, que resultou em tetraplegia. Em menos de 24 horas após o trauma, foi submetido ao procedimento cirúrgico e recebeu aplicação da polilaminina. Seu primeiro movimento voluntário aconteceu três semanas depois, quando ele fez a flexão do dedão do pé.
Ele foi internado no Copa Star, no Rio de Janeiro, onde integrantes da equipe médica já conheciam o trabalho da doutora Tatiana, que na época desenvolvia calada o tratamento com a polilaminina. O tio de Bruno, médico, leu sobre o assunto na hora e assumiu o risco de testar o medicamento experimental no sobrinho. E deu certo! No primeiro mês, o bancário conseguiu mexer o dedão do pé. Depois, a musculatura da perna voltou a funcionar. E, por fim, os braços, processo que durou aproximadamente um ano.
Apesar do sucesso do tratamento, Bruno apresenta algumas sequelas: a mão e a perna esquerda são mais fracas e ele não consegue fazer as tarefas com a mesma rapidez que antes do acidente. Foram 2 anos para se recuperar totalmente.
Em entrevista para o portal LeoDias, Bruno relembrou o dia da aplicação: “Eu estava inconsciente no momento da aplicação. Eu só me lembro de ter dormido no carro e acordado após a cirurgia/aplicação. No início, eu fiquei com o psicológico bem abalado, pois sempre fui muito ativo, já tinha vivido 23 anos de forma saudável e feliz. Quando acordei, tentei me movimentar e não consegui mexer nada”.
“Eu não havia entendido o que estava acontecendo e, nos primeiros dias, que me falaram do meu diagnóstico, eu só queria tomar Rivotril e dormir. Essa fase de choque psicológico durou uns 5 dias. Quando entendi que estava vivo, que minha família e amigos estavam me apoiando, fiquei um pouco melhor. A maior dificuldade durante a recuperação era o medo de ficar dependente de alguém para fazer qualquer coisa”, afirmou.
A sensação de cada vitória ao longo do tratamento e principalmente a de poder andar sem ajuda foi indescritível. “Quando sofri a lesão medular, senti na pele o que é não conseguir comer, beber, sentir, se mexer na cama, ir ao banheiro. São coisas que não damos valor enquanto estamos saudáveis, mas quando perdemos, mudamos um pouco a percepção sobre a vida”.
“O fato de depender de alguém para fazer qualquer coisa é muito incômodo. Eu comemorei com muita felicidade cada conquista. Voltar a conseguir segurar um copo, um talher, se alimentar, levantar, andar, ir ao banheiro sozinho, ter controle de bexiga e intestino, tomar banho etc. Eu fiquei impressionado quando voltei a andar, pois foi uma evolução muito gradual e que exigiu muito refinamento do movimento”, relatou.
Nos primeiros 2, 3 anos após o acidente, o acompanhamento médico do bancário era mais rotineiro. Hoje em dia, quase dez anos depois, realiza ressonância magnética uma vez por ano.
Movimentos de volta, vida normal também! Recentemente, ele postou conseguindo fazer exercícios com 20kg. Além da musculação e corrida, ele também gosta de nadar, andar de bicicleta e fazer trilhas.
Com sua história, Bruno acaba dando ainda mais esperança para pacientes que estão em fase inicial de reabilitação. Ele deixou uma mensagem para essas pessoas: “A primeira coisa é entender e aceitar que acidentes estão fora do nosso controle e que podem acontecer. Segundo é agradecer que está vivo e que ainda será possível desfrutar de bons momentos com família, amigos, trabalho, seja o que for, a vida continua”.
“Terceiro é a importância da fisioterapia, uma lesão medular demanda estímulos físicos para provocar a evolução, a disciplina e o esforço são essenciais na fase de recuperação. Por último, é não deixar se abalar. Se considere um campeão por ter sobrevivido a uma lesão tão grave. A mente muitas vezes pode ser nossa inimiga e é essencial manter um clima bom, com boas energias e felicidade.”, destacou.
Bruno também agradeceu à cientista Tatiana e a todos os profissionais que o ajudaram, à sua família e amigos por sempre estarem ao seu lado. “Meu tio, por ter feito decisões importantes nos momentos mais difíceis; meu pai, por garantir minha disciplina nas fisioterapias; minha mãe, por nunca ter perdido a fé. Fico muito feliz com a repercussão que esse assunto está tendo e torcendo para os estudos avançarem logo, para que possamos multiplicar o milagre que fiz parte”, finalizou.
Em seu Instagram, Bruno costuma falar sobre o tratamento de polilaminina e visa encorajar pacientes que passam por todo o caminho que ele já trilhou.
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