Especialistas contestam fala de Trump que liga paracetamol ao autismo. Entenda!
Para debater o assunto, o portal LeoDias conversou com psiquiatra e neurologista, que comentaram sobre a relação, apontada por Donald Trump, do paracetamol com os diagnósticos de autismo
O aumento nos diagnósticos de autismo nos Estados Unidos nos últimos 25 anos tem gerado debates acalorados sobre possíveis causas do transtorno. Na segunda-feira (22/9), o presidente Donald Trump e o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., divulgaram um relatório apontando fatores que, segundo eles, poderiam estar relacionados ao autismo, como o consumo de paracetamol, princípio ativo do analgésico Tylenol, durante a gestação para tratar febre e dor e até mesmo vacinas, tese já desmentida por dezenas de estudos científicos.
Para debater o assunto, o portal LeoDias procurou a médica psiquiatra Roberta França, o neurologista André Leão e o ginecologista e obstetra Javier Miguelez, que comentaram sobre as declarações do presidente dos Estados Unidos sobre o transtorno neurodivergente.
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Segundo a psiquiatra Roberta França não há qualquer evidência científica que comprove a relação do paracetamol como “causador” do autismo.
“Não há nenhuma evidência científica no mundo inteiro que relacione o consumo de paracetamol por gestantes ao transtorno do espectro autista; isso é uma inverdade. O autismo é uma condição complexa e multifatorial, envolvendo fatores genéticos e ambientais. Portanto, não existe nenhum estudo que comprove uma interferência direta do paracetamol no desenvolvimento do autismo”, afirmou.
Ao portal LeoDias, a especialista explicou que existem medicamentos com ação teratogênica — substâncias que podem afetar o desenvolvimento do feto —, mas eles são amplamente conhecidos, e os ginecologistas orientam as gestantes sobre quais medicações devem ser evitadas e o paracetamol não está nessa lista. “O objetivo não é prevenir especificamente o autismo, mas proteger o desenvolvimento neurológico e físico da criança”, explicou Roberta França.
Estudos dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) identificam múltiplos fatores que podem influenciar o risco de autismo, incluindo poluição do ar, exposição a produtos químicos e infecções virais durante a gravidez. Pesquisas também indicam maior risco em filhos de pais mais velhos ou em nascimentos prematuros.
“Em relação ao autismo, as evidências científicas apontam como fatores de risco a idade materna avançada, o uso de medicamentos teratogênicos que possam comprometer a gestação, complicações no parto e partos muito prolongados, que podem causar hipóxia — ou seja, falta de oxigenação do bebê — levando a sofrimento fetal”, detalhou a médica.
“Divulgar informações incorretas sobre a relação entre paracetamol e autismo gera angústia, desinformação e desconforto, principalmente para mães que, muitas vezes, precisam consumir determinados medicamentos durante a gravidez. Por isso, é fundamental ter atenção às fake news e sempre buscar informações em órgãos e fontes científicas confiáveis. Sem dados científicos, não é possível afirmar, informar ou justificar algo que não se conhece”, acrescentou Roberta França.
“O resultado é mais desinformação e menos foco em prevenção”
O neurologista André Leão tem a mesma opinião que a psiquiatra. Ao portal LeoDias, ele reafirma que não existe evidência científica sólida que comprove uma relação de causa e efeito entre o paracetamol e o autismo. “O que temos são estudos observacionais que sugerem associação, mas associação não significa causa. Esses estudos levantam hipóteses interessantes, mas ainda sem comprovação definitiva ou mecanismos biológicos estabelecidos”, salienta.
O especialista explica que o transtorno do espectro autista é multifatorial. “Ele resulta da interação entre predisposição genética e influências ambientais. Isso significa que nenhum fator isolado explica o surgimento do autismo. Medicamentos, infecções ou exposições ambientais só teriam algum papel em indivíduos geneticamente suscetíveis”, diz.
Para o neurologista, quando surgem afirmações como a do presidente dos Estados Unidos, há risco de aumentar a desinformação sobre as verdadeiras causas do autismo. “Esse é um ponto crítico. Quando a sociedade recebe informações simplistas ou alarmistas, corre-se o risco de gerar ansiedade em gestantes e famílias, além de desviar a atenção dos fatores realmente relevantes. O resultado é mais desinformação e menos foco em prevenção e acompanhamento adequados”, frisa.
Questionado se podemos considerar que estamos vivendo uma “epidemia de autismo”, André Leão pontua: “Não se trata de uma epidemia biológica. O que ocorre é um aumento do número de diagnósticos, devido a critérios mais abrangentes, maior conscientização da população e capacitação dos profissionais. Hoje, identificamos casos que antes passavam despercebidos”.
O mais importante é garantir um pré-natal adequado
Também em entrevista ao portal LeoDias, o ginecologista e obstetra Javier Miguelez, especialista em Medicina Fetal, explica que não há formas conhecidas de prevenir o autismo durante a gestação. Segundo ele, o mais importante é garantir um pré-natal adequado, manter uma dieta equilibrada e evitar álcool, tabaco e drogas ilícitas.
Sobre o uso de medicamentos na gravidez, o médico lembra que pouquíssimos fármacos foram amplamente estudados quanto à segurança nesse período. Por isso, recomenda que sejam utilizados apenas com prescrição médica e sempre na menor dose e pelo menor tempo possível, após avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios.
Em relação ao paracetamol, Miguelez esclarece que não existe evidência científica sólida de que o uso da medicação na gestação aumente o risco de autismo. De acordo com ele, estudos já apontaram associação, mas não causalidade, e outros sequer identificaram vínculo.
Ele destaca ainda que variáveis como febre, infecção, inflamação ou estresse — que podem ter motivado o uso do medicamento — são, por si só, fatores de risco para alterações no desenvolvimento neurológico do feto. “Um estudo de corte muito amplo, publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), que analisou dados de quase 2,5 milhões de crianças na Suécia, não encontrou uma ligação causal, e as principais sociedades médicas consideram o paracetamol uma das opções mais seguras na gestação”, reforça o especialista.
Entendendo o autismo
O transtorno do espectro autista (TEA) envolve uma combinação de dificuldades de comunicação, desafios sociais e comportamentos repetitivos. A gravidade varia amplamente, desde formas leves até casos graves, em que a criança pode não conseguir se comunicar ou realizar atividades básicas sem ajuda.
Não existem exames laboratoriais ou de imagem que confirmem o diagnóstico; ele se baseia nas observações médicas e nas informações fornecidas pelos familiares.
Paracetamol e gestação
O uso de paracetamol durante a gravidez é estudado há mais de uma década. Alguns trabalhos apontaram risco aumentado de distúrbios do neurodesenvolvimento, enquanto outros, ao controlar fatores genéticos e de saúde materna, não encontraram relação.
Em agosto, uma revisão de 46 estudos publicada por pesquisadores da Escola de Saúde Pública Harvard TH Chan e da Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai analisou oito pesquisas sobre autismo. Concluiu-se que, embora houvesse associação com TDAH ou autismo, isso não significa causalidade.
Um estudo sueco de 2024, que analisou 2,5 milhões de crianças, mostrou que a associação desaparecia quando comparados irmãos nascidos da mesma mãe, reforçando a complexidade do tema.
A controvérsia das vacinas
A ideia de que vacinas causariam autismo surgiu no final dos anos 1990, após estudo do médico britânico Andrew Wakefield com apenas 12 crianças. A pesquisa sugeria uma ligação entre a vacina tríplice viral e o autismo, mas foi completamente desmentida por estudos maiores, incluindo análises envolvendo toda a população infantil da Dinamarca. O artigo foi retratado em 2010, e Wakefield perdeu sua licença médica.
Por que os diagnósticos aumentaram
Atualmente, estima-se que 1 em cada 31 crianças nos EUA tenha diagnóstico de autismo, um crescimento em relação a 1 em 150 em 2000. O aumento está ligado à expansão dos critérios diagnósticos, maior conscientização sobre o transtorno e disponibilidade de serviços especializados.
Desde a terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), em 1980, a definição de autismo passou por mudanças, como inclusão de crianças com sintomas tardios, ampliação dos critérios e, em 1994, incorporação da síndrome de Asperger. A quinta edição do DSM, de 2013, consolidou subtipos em um único diagnóstico e permitiu diagnósticos combinados com TDAH.
Além disso, a triagem universal de bebês nas consultas de rotina e discussões nas redes sociais ampliaram o reconhecimento do autismo, auxiliando famílias a buscar orientação e comunidade.
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