Jogador aposentado ainda vale milhões? Entenda o poder da marca no pós-carreira
De Pelé a Ronaldinho Gaúcho, ex-atletas transformam nome, imagem e legado em negócios que continuam ativos depois do fim da carreira
O jogador para de jogar. A marca começa a jogar outro campeonato. A frase ajuda a explicar uma realidade cada vez mais comum no esporte: a aposentadoria encerra a carreira dentro de campo, mas pode abrir uma nova etapa fora dele. Nome, imagem, apelido, conquistas e identificação com o público continuam sendo ativos capazes de gerar contratos, produtos, licenciamentos, publicidade e novos negócios.
Pelé é um dos exemplos mais evidentes. O Rei do Futebol morreu em dezembro de 2022, mas sua marca continua sendo explorada comercialmente. Em 2025, a NR Sports, empresa ligada à família de Neymar, adquiriu os direitos da marca Pelé. Em setembro de 2026, a imagem do ex-jogador voltou a aparecer na camisa do Santos em um acordo envolvendo a empresa.
Veja as fotos
O Santos estima que as propriedades comerciais envolvidas na negociação possam alcançar entre R$ 18 milhões e R$ 20 milhões em um cenário otimista. A carreira de Pelé acabou há quase 50 anos. O negócio em torno de seu nome, não. É justamente aí que começa a diferença entre a carreira de um atleta e a construção de uma marca.
O jogador para. A imagem fica
Durante uma carreira esportiva, um atleta acumula muito mais do que gols, títulos e estatísticas. Cria símbolos. O número da camisa, o apelido, uma comemoração, uma assinatura, uma frase, um estilo de jogo ou uma fotografia podem se tornar elementos reconhecidos pelo público.
Quando o atleta se aposenta, esses símbolos continuam existindo. Podem aparecer em campanhas publicitárias, roupas, produtos, documentários, coleções e experiências.
Pelé representa o caso extremo. Sua imagem deixou de depender de novas partidas há décadas. O que permanece é o patrimônio simbólico construído ao longo da carreira.
O uso de sua imagem pelo Santos em 2026 mostra isso de maneira concreta. Uma fotografia associada a um jogador que não entra em campo desde 1977 continua tendo valor comercial para uma das instituições mais importantes de sua trajetória.
Ronaldinho transformou carisma em marca
Ronaldinho Gaúcho representa outro caminho. O ex-jogador construiu uma identidade que vai muito além de seus títulos por Barcelona, Milan e Seleção Brasileira. O apelido “R10”, o sorriso, o estilo irreverente e a maneira como jogava futebol se transformaram em elementos reconhecidos mundialmente.
Em 2026, essa imagem ganhou mais um capítulo. Ronaldinho lançou sua primeira marca própria de roupas, a Use Ronaldinho, desenvolvida em parceria com a Momentus Fashion Company. A empresa participa da estruturação da marca, produção das coleções e estratégia de licenciamento. O projeto se soma a outras parcerias comerciais do ex-atleta no mercado de moda, incluindo trabalhos com Rider, Renner e Outerstuff.
Nesse caso, o nome do jogador não aparece apenas em uma campanha de publicidade. Ele está no próprio produto. A diferença é importante. Uma celebridade pode emprestar sua imagem para vender uma marca. Um atleta também pode transformar sua própria imagem em uma marca que vende produtos. Ronaldinho está seguindo esse segundo caminho.
Ronaldo Fenômeno e os negócios
Ronaldo Nazário levou a construção de marca para outro território. Depois de uma carreira marcada por três Copas do Mundo, dois títulos mundiais e passagens por clubes como Barcelona, Inter de Milão, Real Madrid e Milan, o Fenômeno passou a investir diretamente no mercado esportivo.
Em 2010, criou a 9ine Sports & Entertainment, empresa voltada a marketing esportivo, gestão de imagem de atletas e entretenimento. A operação foi encerrada em 2016. Depois, Ronaldo passou a ocupar o papel de dono de clube.
Em 2018, comprou 51% do Real Valladolid, da Espanha. Em 2021, também adquiriu o controle do Cruzeiro. Vendeu sua participação no clube brasileiro em 2024 e deixou o comando do Valladolid em 2025.
Em 2026, o ex-atacante voltou a aparecer ligado a uma nova operação no futebol. Ronaldo e Roberto Carlos passaram a integrar um grupo de investidores interessado na SAF da Inter de Limeira. A proposta previa a formação de uma holding para realizar o investimento, embora os valores da participação de cada sócio ainda não tenham sido divulgados.
A trajetória empresarial de Ronaldo mostra uma possibilidade diferente para a imagem de um atleta aposentado. Ela pode deixar de ser apenas um espaço publicitário e virar uma porta de entrada para investimentos.
Guga transformou carreira em estrutura empresarial
Gustavo Kuerten também construiu uma trajetória que ultrapassou as quadras. O Grupo Guga Kuerten nasceu a partir da gestão da carreira e da imagem do tenista e, ao longo dos anos, expandiu sua atuação para diferentes setores.
Em 2025, quando o grupo completou 30 anos, a estrutura reunia negócios ligados à educação esportiva, franquias, gestão de marca, energia fotovoltaica, investimentos financeiros e mercado imobiliário. A Guga Kuerten Company permanece responsável por atividades relacionadas à marca e imagem do ex-tenista.
É um exemplo de como a imagem construída durante uma carreira pode servir como ponto de partida para uma estrutura que vai muito além da publicidade.
Guga deixou de ser apenas o tenista que venceu Roland Garros. Seu nome passou a identificar empresas, projetos, produtos e iniciativas sociais.
Senna morreu há 32 anos e a marca continua crescendo
Se existe um caso brasileiro capaz de resumir o poder de uma marca esportiva depois da carreira, é Ayrton Senna. O piloto morreu em 1994, mas sua imagem continua sendo explorada comercialmente em escala internacional.
Segundo a Senna Brands, empresa responsável pela gestão e expansão das marcas Senna e Senninha, o faturamento da companhia cresceu oito vezes nos últimos seis anos. A marca está presente em mais de 70 países e possui mais de 65 parceiros de licenciamento, entre eles empresas como Tag Heuer, Ducati e McLaren.
O negócio também deixou de se limitar a produtos tradicionais. Em 2026, a Senna Brands anunciou novas colaborações nas áreas de moda, lifestyle e experiências. Em agosto, por exemplo, a Sea-Doo lançou uma edição limitada de uma moto aquática inspirada no piloto, com 1.991 unidades disponíveis mundialmente.
Senna morreu há mais de três décadas. Ainda assim, sua marca continua chegando a consumidores que nem sequer estavam vivos quando ele disputava uma corrida de Fórmula 1. É aí que o conceito de legado ganha uma dimensão empresarial.
Quanto vale um nome?
Não existe uma tabela para calcular o preço de um atleta aposentado. O valor depende de diversos fatores: reconhecimento, relevância histórica, tamanho da audiência, capacidade de gerar identificação, território em que a marca é conhecida e quantidade de propriedades comerciais disponíveis.
Também é importante separar o faturamento de uma empresa do dinheiro que chega diretamente ao atleta ou à sua família. Uma operação de licenciamento envolve produção, distribuição, marketing, impostos, parceiros e diversos outros custos.
Mesmo assim, os exemplos mostram que existe uma característica comum entre os grandes ídolos: a carreira esportiva pode ser apenas a primeira fase da construção de uma marca.
Pelé deixou de jogar, mas seu nome continuou sendo negociado. Ronaldinho transformou o próprio estilo e apelido em produtos. Ronaldo levou sua imagem para o empreendedorismo e para a propriedade de clubes. Guga construiu uma estrutura empresarial a partir da própria trajetória. Senna morreu em 1994 e, mais de 30 anos depois, sua marca continua expandindo negócios pelo mundo.
O público pode parar de acompanhar os jogos. Mas não necessariamente para de reconhecer o jogador. E é justamente nessa diferença que mora o valor da pós-carreira.
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