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Mulher perde o movimento das pernas após realizar procedimento com fenol para endometriose

Bruna Conceição dos Santos está sem andar desde 2023, quando realizou o procedimento com fenol na tentativa de tratar as dores causadas pela endometriose. Ela conversou com esta reportagem e contou todos os detalhes

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          A técnica de enfermagem e estudante de psicologia Bruna Conceição dos Santos, de 25 anos, moradora de Samambaia Sul, no Distrito Federal, viu a vida mudar completamente após se submeter a um tratamento com fenol para aliviar as dores causadas pela endometriose. O procedimento, realizado na Clínica L’Essence, na Asa Sul, teria deixado a jovem paraplégica.

          Bruna começou a sentir fortes dores em 2022, decorrentes de endometriose profunda. As crises atingiam a região pélvica, o quadril, a lombar e o baixo ventre. Mesmo utilizando DIU, as dores persistiam. Ela tentou diferentes terapias, como aplicações de botox anal e bloqueio ferominal, mas os resultados foram temporários.

          Veja as fotos

          Reprodução Instagram Bruna Conceição dos Santos
          Bruna Conceição dos Santos na cadeira de rodas após perder os movimentos devido o fenolReprodução Instagram Bruna Conceição dos Santos
          Reprodução Instagram Bruna Conceição dos Santos/ montagem
          Antes e depois de Bruna Conceição dos Santos após tratamento com fenol que a deixou sem andarReprodução Instagram Bruna Conceição dos Santos/ montagem
          Reprodução Instagram Bruna Conceição dos Santos
          Maxwell e Bruna Conceição dos SantosReprodução Instagram Bruna Conceição dos Santos

          Diante das falhas, o médico responsável indicou o implante de um neuroestimulador sacral, que exigia alguns procedimentos prévios. Bruna conta que escolheu a clínica por ser considerada referência na área.

          “Marquei, fui toda feliz… [o médico] nos tratou muito bem, educado. Logo de cara nos mostrou o neuroestimulador e nos explicou como seria a cirurgia, que era com duas etapas. Ele falou que ela precisava fazer bloqueio venoso e se na terceira sessão der certo, nós fazemos o implante… foi até a décima e não tinha passado a dor. Saí chorando de desgosto, triste, raiva, porque eu queria acabar com essa dor”, relatou.

          Conforme a jovem, após a sequência de sessões, o médico decidiu aplicar fenol para bloquear o nervo responsável pela dor.

          “Que vai queimar os nervos que faz com que a dor vai pro cérebro. Meu marido ficou desconfiado. Nem na internet tinha matérias falando, meu esposo pesquisou. Por mais que as pessoas ficassem falando que fomos leigos, não tinha o que falar de pesquisar e fizemos.”

          O marido de Bruna, Maxwell, contou que o casal não foi alertado sobre os riscos da substância. “O médico não trouxe pra mim analisar… falou que não teria risco nenhum… recentemente eu descobri que o procedimento do fenol deveria usar de 3 a 5 % e ele [o médico] usou 15 de fenol.”

          O casal vivia um momento de felicidade. Bruna e Maxwell haviam se casado e retornado da lua de mel em 2023, quando decidiram iniciar o tratamento para melhorar a qualidade de vida dela. Mas o sonho do recomeço acabou se transformando em uma longa batalha. Bruna sonha em ser mãe.

          Início das sequelas

          Bruna relembrou o momento em que saiu da sala do procedimento. “Quando saí, vim apoiada na profissional, meu esposo falou que eu caí em cima dele. Sempre fui teimosa, tentei usar o andador, que disse que eu sabia, caí que só, caí em lugares planos, quedas bestas, sem motivo.”

          Após o quadro se agravar, a paciente voltou à clínica. Segundo ela, o médico alegou que a incapacidade de andar não tinha relação com o tratamento e sugeriu que poderia se tratar de uma hérnia de disco — hipótese descartada após novos exames.

          “Aí, quando aconteceu isso, eu pedi um encaminhado pro Sarah [hospital público de Brasília focado em reabilitação], ele só colocou isso [encaminho para o Sarah] e não teve laudo nem relatório… como nenhum médico queria pegar o caso, nós íamos ao médico, o médico conhecia o Dr. [que fez o tratamento] e não queria pegar o caso, ficava com medo porque é complexo.”

          Diante da dificuldade de conseguir acompanhamento, o casal procurou o Conselho Regional de Medicina (CRM). “O CRM fez uma coletiva entre eles e eles alegaram a lesão, que foi quando encontramos o Dr. Luis [neurocirurgião que a trata depois do acontecimento].”

          Proibição e investigação

          Um mês após o procedimento, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a resolução nº 2.384/24, proibindo o uso de fenol em procedimentos médicos e estéticos devido à alta periculosidade da substância.

          Segundo o marido da paciente, o ginecologista ainda não conseguiu um diagnóstico conclusivo, mas suspeita de adenomiose. Antes, a maior dor de Bruna era a pélvica crônica causada pela endometriose. Agora, ela convive com as sequelas do procedimento malsucedido, que resultaram em neuropatia neurocral e radiculopatia lombar com paraparesia dos membros inferiores.

          “Não tenho mais vida comum”

          Hoje, Bruna vive em cadeira de rodas e depende de terceiros para realizar as tarefas mais simples. “Não tenho mais vida comum. A adaptação é difícil. Vejo que o que mais me mantém firme e forte é não ter abandonado a minha fé e ter meu esposo no meu lado pra não desistir, meus familiares e amigos”, desabafou.

          Mesmo diante das limitações, ela afirma que o objetivo é alertar outras pessoas para que casos semelhantes não se repitam.

          “Eu sei que todos nós estamos propensos a errar, mas um erro desse é horrível. Que ele tome muito cuidado quando ele for tratar, que ele tenha certeza”, afirmou, referindo-se ao médico anestesiologista da clínica, Dr. Lucas da Silva França.

          Ação judicial

          A Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF) ingressou com uma ação na Justiça contra a Clínica L’Essence e o médico Lucas França, responsáveis pelo procedimento. O órgão aponta possível imperícia médica. Tanto a clínica quanto o profissional negam falhas no atendimento.

          O processo pede indenização por danos morais e estéticos, pensão vitalícia, plano de saúde e custeio integral do tratamento de reabilitação.

          Reabilitação e rotina atual

          Atualmente, Bruna segue com fisioterapia e exercícios de musculação nas pernas, mesmo sentada, para evitar atrofia muscular. “Senão vai ter que amputar”, explicou.

          Apesar das dificuldades, ela tenta manter o equilíbrio emocional e a esperança. “Minha vida é uma montanha-russa, tem dia que to lá embaixo e não quero sair, escondida no meu cobertor, e tem dia que to lá em cima, to agitada porque são mudanças. Tem dia que acho que as pessoas vão rir de mim, é difícil. Foi um baque enorme, mas eu to fazendo terapia e com o tempo, eu acredito que vou acostumando e ajudar mulheres. Sempre penso que vai ter alguém pior que eu, passando fome, dormindo debaixo da ponte.”

          Para que serve o fenol?

          Segundo o Conselho Regional de Medicina, o fenol é útil para o manejo de dores crônicas não malignas refratárias e pode ser aplicado em casos de dor de membro fantasma, neuralgia do trigêmeo, síndrome de dor miofascial, dor lombar crônica e dor oncológica.

          Clínica se manifesta

          Em nota enviada ao portal LeoDias, a Clínica L’Essence negou que Bruna tenha feito o procedimento no local em questão.

          “Em atenção às solicitações de jornalistas sobre o caso recentemente divulgado pela imprensa, a Clínica L’Essence Cuidados ao Paciente com Dor informa o que segue:
          1. Os procedimentos mencionados na reportagem não foram realizados nas dependências da Clínica L’Essence. Ambos ocorreram em ambiente hospitalar — o primeiro no Hospital Alvorada Brasília e o segundo no Hospital Brasília Lago Sul, instituições que possuem infraestrutura própria, equipe assistencial e responsabilidade direta pelos atos médicos executados em suas dependências.

          2. A Clínica L’Essence realiza atendimentos médicos especializados e procedimentos minimamente invasivos de baixa complexidade, seguindo rigorosamente as normas de segurança e ética do Conselho Federal de Medicina (CFM). Nos casos de neurólises ou procedimentos de maior complexidade, é rotina da equipe encaminhar e realizar tais intervenções exclusivamente em ambiente hospitalar,
          justamente para assegurar os mais altos padrões de segurança e cuidado ao paciente.

          3. A clínica não possui qualquer envolvimento direto com o evento clínico mencionado, limitando-se ao acompanhamento ambulatorial da paciente antes do encaminhamento hospitalar. Por respeito à confidencialidade médica e em conformidade com a legislação vigente, não
          serão fornecidas informações sobre prontuários ou detalhes assistenciais.

          4. A Clínica L’Essence informa ainda que não foi notificada de qualquer demanda judicial ou administrativa relacionada ao referido caso.
          Caso venha a ser formalmente comunicada e tenha acesso ao conteúdo da denúncia, apresentará sua defesa de forma técnica e responsável, confiando no devido processo legal e na apuração isenta dos fatos.

          5. A L’Essence reitera seu compromisso com a ética, a ciência e o cuidado humanizado, e permanece à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos necessários. O objetivo deste posicionamento é evitar a divulgação de informações incorretas ou imprecisas que associem indevidamente a clínica ao caso citado.”

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