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Suplementação infantil: o que a ciência diz sobre whey e creatina para crianças

A infância é a fase em que o cérebro aprende a comer. Textura, cheiro, sabor, mastigação, tudo isso constrói a relação da criança com a comida

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          A recente fala da personal trainer Carol Borba, ao dizer que oferece whey protein e creatina para a filha de 3 anos, acendeu um alerta, o argumento parece simples: “é melhor que achocolatado”, mas essa comparação ignora um ponto central: suplementos esportivos não foram feitos para crianças.

          Antes de qualquer debate, existe um fato objetivo: a Anvisa exige que esses produtos tragam no rótulo a frase: “Este produto não se destina a menores de 19 anos.” Isso não é excesso de zelo. É falta de evidência de segurança.

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          Influenciadora Carol BorbaFoto: Reprodução
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          Criança pode tomar whey protein? Nutricionista respondeFoto: Reprodução / Unsplash

          Creatina: funciona em adultos

          A creatina é um dos suplementos mais estudados no mundo. Em adultos, há consenso: ela melhora o desempenho em exercícios de alta intensidade ao otimizar a produção de energia. Em crianças, os estudos existem quase exclusivamente em contextos clínicos, como doenças neuromusculares e erros metabólicos raros. Para crianças saudáveis, não há dados de segurança a longo prazo. E aqui entra um ponto básico: o organismo infantil ainda está em desenvolvimento, especialmente rins e fígado. Introduzir creatina sem necessidade clínica vai contra o princípio mais importante da pediatria: não expor ao risco sem benefício comprovado.

          Whey protein: não é comida saudável, é ultraprocessado (principalmente falando de crianças)

          O whey protein costuma ser visto como sinônimo de saúde, mas na prática ele é um produto ultraprocessado. A maioria das versões contém:

          • adoçantes artificiais
          • aromatizantes
          • corantes

          Estudos, mostram que adoçantes artificiais podem alterar a microbiota intestinal e prejudicar o metabolismo da glicose. Isso é ainda mais acentuado quando falamos da população pediátrica, que ainda está em processo de formação da sua microbiota. Além disso, existe um risco menos óbvio: excesso de proteína na infância, que pode parecer loucura no momento hiperproteico que o mundo vive, mas a verdade é que a maior parte da população não precisa de tanta proteína, ainda mais quando falamos em pediatria.

          A chamada Hipótese da Proteína Precoce mostra que ingestões elevadas nessa fase aumentam hormônios como IGF-1 e insulina, favorecendo:

          • maior acúmulo de gordura
          • ganho de peso acelerado
          • maior risco de obesidade e diabetes no futuro

          Ou seja: tentar “nutrir melhor” pode, na prática, programar o metabolismo para adoecer depois.

          O mito do “melhor que achocolatado”

          Comparar whey com achocolatado cria uma falsa escolha. Não é preciso decidir entre açúcar ou ultraprocessado proteico. Existe outras milhares de opções, com comida.

          Leite, frutas, ovos, iogurte natural, pão, verduras, legumes… Sem rótulo chamativo, sem promessa exagerada, e com muito mais valor nutricional real.

          O prejuízo invisível: o paladar infantil

          Aqui está o ponto mais negligenciado, e talvez o mais importante. A infância é a fase em que o cérebro aprende a comer. Textura, cheiro, sabor, mastigação, tudo isso constrói a relação da criança com a comida. Quando a alimentação é substituída por líquidos doces e artificiais:

          • o paladar se condiciona ao excesso de doçura
          • aumenta a rejeição a alimentos naturais
          • cresce a neofobia alimentar (medo de novos alimentos)

          Uma vitamina de whey nunca vai ensinar:

          • a crocância de uma cenoura
          • a cremosidade de um abacate
          • o sabor real de uma fruta madura

          E isso não aparece em tabela nutricional, mas impacta a saúde por décadas.

          A armadilha da praticidade

          Os “wheys prontos” parecem solução fácil para colocar nas lancheiras, mas para crianças, trazem problemas claros:

          1. Proteína em excesso

          Uma única caixinha pode entregar quase toda a necessidade diária de proteína de uma criança (dependendo da idade)

          1. Falta de mastigação

          Alimentos líquidos não geram a mesma saciedade e prejudicam o desenvolvimento da mastigação e da face.

          O que oferecer no lugar?

          Sem radicalismo:

          • pão com ovo;
          • iogurte natural com fruta;
          • queijo quente;
          • frutas com aveia;
          • pipoca;
          • milho cozido;
          • bolo simples;
          • crepioca;
          • tapioca com recheio de frango;
          • cuscuz com ovo;
          • vitamina de abacate;
          • muffins caseiros (banana + aveia + ovo);
          • homus (pasta de grão de bico) com cenoura;
          • ovos de codorna com tomate cereja;
          • wrap com pasta de ricota temperada;
          • suco de fruta para maiores de 2 anos entre outras opções.

          Quando suplementar faz sentido?

          Sim, existe espaço para suplementação na infância. Casos como:

          • desnutrição;
          • doenças crônicas;
          • condições neurológicas.

          Nessas situações, são usadas fórmulas pediátricas específicas, desenvolvidas para essa faixa etária, completamente diferentes de suplementos esportivos ou de qualquer suplemento destinado a população adulta.

          O ponto final

          Criança não precisa de whey.

          Criança não precisa de creatina.

          Criança precisa de:

          • variedade
          • comida
          • experiências com o alimento

          O desenvolvimento saudável não vem de um pote. Vem do prato.

          Lista de Referências

          • SUEZ, J. et al. Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota. Nature, v. 514, n. 7521, 2014.
          • ANVISA. Resolução RDC nº 243, de 26 de julho de 2018 (Suplementos Alimentares).
          • MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, 2019.
          • MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia Alimentar para População Brasileira, 2014.
          • SBP. Manual de Orientação de Nutrologia: Alimentação da Criança e do Adolescente. 5ª Ed., 2023.

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